Do nada ao todo, a mente existe no corpo

Falta de ar, dor no peito, angústia, desespero, mal estar insuportável. Ajuda. Pronto socorro. Triagem, pressão normal, respiração normal, sem febre. Exames, espera, todos normais. Não foi um infarto, não era um derrame, não tem pneumonia, ufa.

How Anxiety and Panic Attacks Differ

A senhora não tem nada, teve uma crise de nada causada por coisa alguma. Pode voltar para casa e até amanhã.

Crises de ansiedade, episódios depressivos e outros diagnósticos psiquiátricos ainda são enxergados como “nada”.

Um sintoma inventado, fruto de quem pensou errado, está fazendo corpo mole ou tem a “mente fraca”.

Na Grécia Antiga, Platão já estruturava modelos que separavam o corpo físico das funções cognitivas e comportamentais do ser humano, na modernidade, René Descartes reforçou o dualismo corpo e mente.

Essa visão ainda tem profundo impacto na forma que nos enxergamos e influencia o entendimento das doenças psiquiátricas.

A mente é entendida como entidade separada do corpo, a figura ativa, o piloto das maquinarias anatômicas.

Divertida Mente – Oficina de Valores

A mente passa a existir em um plano metafísico, intangível, relacionado mais a regras de caráter, índole, fé e força de vontade do que às leis químicas e alterações biológicas do físico.   

Se não pode ser enxergada, suas manifestações não são nada. 

O corpo, por outro lado, é entidade passiva, despida de vontade, portanto um adoecimento que envolva braços, pulmões ou intestinos, é reconhecido, respeitado e o doente tratado como tal.

Você não tem culpa do que acontece com seu corpo, mas é o responsável direto pelo funcionamento da sua mente.

How to Stop a Panic Attack Before Things Get Really Bad

Ocorre que tal visão, apesar de intuitiva à nós, ocidentais, não tem nenhuma sustentação na ciência contemporânea.

A mente é um dos produtos do nosso corpo.

Como tudo que é difícil de entender, parece mágica, e pode até ser, mas esse milagre diário ocorre a partir do nosso funcionamento cerebral e fisiológico.

O próprio uso do termo “doenças mentais” é bastante problemático.

Quadros infecciosos, ginecológicos, cardiológicos, e todos os outros estão protegidos no guarda chuva das “doenças físicas”, que você, sua mãe e seus filhos eventualmente podem ter.

Do lado oposto, exposto às intempéries da subjetividade, estão as doenças mentais, que você e sua família, pessoas corretas e virtuosas, certamente nunca sofrerão. 

A mudança do termo “doença mental”, para doença psiquiátrica, ou mesmo doença cerebral psiquiátrica parece ser um passo razoável na direção de integrar as alterações de humor e comportamento ao universo mais neutro da saúde como um todo. 

Uma visão mais biológica em hipótese alguma se contrapõe às correntes revolucionárias de humanização, abordagem multidisciplinar e inserção social que são altamente efetivas e transformadoras.

Quem estuda o corpo humano a fundo percebe que interações sociais, alimentação saudável e psicoterapia, por exemplo, alteram objetivamente nossa fisiologia no caminho do bem estar. 

Researchers reveal how to boost brain power

Com esse tom, entendo que ficamos mais próximos de mudanças efetivas. Trazemos a distante saúde mental mais próxima da saúde.

Que as doenças psiquiátricas sejam estudadas nas escolas como se estuda dengue e infecções sexualmente transmissíveis.

A negligência por serviços de emergência em atender uma crise suicida deve gerar a mesma responsabilização legal que negar atendimento a uma crise de asma. 

O diagnóstico médico de “você não tem nada” não pode ser normalizado pela ignorância na compreensão de um dos sistemas mais importantes do organismo.

De batimentos cardíacos ao ciclo menstrual, a regulação emocional influencia seu corpo inteiro. 

Menos dualismo, mais integração.

Healthy Lifestyle Tips That Can Lead to Happiness | Best Health Canada

Você é a sua mente, você é o seu corpo, você é o todo e ninguém sofre por nada.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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O ministério da saúde não adverte

Feito para te viciar, é uma forma de ocupar as mãos, deixa pessoas tímidas mais confortáveis, um companheiro para os momentos de solidão que cabe no seu bolso, poderia estar descrevendo um maço de cigarros, mas esse é o seu aparelho celular. 

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Designers são velhos aliados da indústria do tabaco, desenham um produto que pareça elegante, sabores diferentes tornam fumaça mais palatável, versões mais finas e com o rótulo “light” parecem mais seguras.

A indústria quer fumantes e continuam pensando em como atrair novos usuários.

Da mesma forma, aplicativos de smartphones são milimetricamente desenhados para te viciar.

Do outro lado da tela existem centenas de programadores com um único objetivo: captar sua atenção.

Uma vibração ou alerta desperta a expectativa de recompensa, um trago que te prende em um fluxo de informações desnecessárias, enquanto capturam seus dados para retroalimentar o ciclo.

Disfarçados de ferramenta útil, aplicativos podem dominar seu tempo e te distanciar de fontes de prazer valorosas. Para quem está preso no ciclo de olhar a tela a cada minuto, se desconectar induz abstinência.

Você se torna, literalmente, um usuário. Com login e senha. 

Dopamine taking over our Imaan

O tabagismo também é estimulado pela ansiedade social, é um fator que dificulta inclusive os que querem abandonar o fumo.

Em festas ou reuniões, fumantes se descrevem desajustados, sem saber o que fazer com as mãos se não tiverem um cigarro ao alcance.

Hoje, recorreremos facilmente às telas.

Não existe desajuste social em mexer no celular sozinho, assuntos intensos e desconfortáveis são apaziguados em checagens repetidas às notificações.

Se todos conversam em uma mesa, você não precisa interagir, abra seu feed que está tudo bem. 

5 Ways to Break Your Addiction to Your Mobile Phone | The Ranch TN

Como uma profecia autocumprida, o desconforto com interações induzem um hábito que mina ainda mais o estabelecimento de vínculo, intimidade e traquejo social. 

Solidão também estimula ambos os vícios, morar sozinho é um fator de risco para diversas dependências. O cigarro é descrito como um companheiro. Um celular conquista com a falsa sensação de conexões reais. 

Crianças que competem demais com as telas dos pais acabam ganhando uma para ficarem no silencioso.

5 Simple Tips to Stop Mobile Phone Addiction in Children

Nós levamos celulares para a cama e, como consequência, nunca dormimos tão mal.

Assistir um filme completo sem acessar redes sociais parece um sacrifício.

Eles estão na mesa de jantar, entre uma garfada e outra, só aquela conferida, por que não?

Os mais modernos estudos em dependências apontam que o que determina a gravidade e os prejuízos do quadro não é a droga em si, mas a relação estabelecida com ela.

Alguém que tenha outras fontes de prazer, consegue, com mais facilidade, se afastar do hábito ou substância.

O problema é que pessoas, livros e boas músicas não tem feeds, desenhados especificamente para te agradar, te curtir, nem recebem atualizações semanais para se tornarem mais viciantes. 

Celulares, por sorte, não causam câncer, mas podem te distanciar do que realmente importa para você. Isso o ministério da saúde não adverte. 

Não se deixar levar pelo fluxo viciante e uso compulsivo de celulares é um esforço ativo, exige que você nade contra a maré. 

Criar cômodos sem celulares na casa, horários para se desconectar e silenciar todas as notificações possíveis é um ótimo caminho para começar.

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E se você está lendo esse texto em sua tela de bolso, sem neuras, mas modere o uso, se afaste do próximo trago.

Pare, olhe ao redor, converse com quem estiver por perto.

Faz um dia lindo lá fora

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Janeiro Branco, saúde mental é sobre autocuidado

Possibilidades. Recomeço. Deixar o que deve ficar para trás. Janeiro é uma referência ao deus grego Jano, que representa transições e mudanças.

O ano tem sido colorido para destacar campanhas relevantes na área da saúde, e aproveitando a simbologia do mês, criou-se o Janeiro Branco, mês de conscientização sobre a saúde mental.

Uma folha em branco é um universo de possibilidades, se desenha um sol amarelo ou, com algumas retas, um castelo. A metáfora é sobre construir, edificar um estilo de vida que tenha a saúde mental no seu alicerce.

A campanha do Janeiro Branco é recente, surgiu em 2014, capitaneada por profissionais da psicologia, e é um movimento nacional que tem ganhado espaço a cada ano. 

Ao contrário do Setembro Amarelo, cujo foco é o suicidio, o fim trágico de um adoecimento mental, aqui falamos sobre atitudes positivas, que assimiladas à rotina, levam ao bem estar e te protegem de adversidades.

Estou falando do cultivo de hábitos e relações que te engrandeçam, aliviam o estresse do mundo externo, te fazem sorrir e repensar aqueles que levam ao sofrimento.

O grande trunfo é que nossa mente é equipada de uma ótima bússola que aponta ao que faz bem.

Praticar exercício físico é indispensável a uma saúde duradoura, mas qual te trás mais saúde mental? Relações afetivas também são essenciais, mas essas que você tem cultivado, valem a pena? Afinal, o que você gosta de fazer? Ninguém, além de você consegue responder.

Você foi à academia porque disseram que era bom, comeu salada porque o médico mandou, trabalha porque precisa do salário, se casou porque teve filhos, cuida dos filhos porque eles não se cuidam sozinhos.

Cumprindo o burocraticamente papel de mãe, advogada, esposa, filha, irmã, dona de casa, em algum momento Maria deixa de ser Maria. Espremida pelo o que entende como obrigações, não resta nada que realmente queira fazer.

Como um castelo de cartas, uma vida sem tempo para si, sem lazer e sem relações empáticas, desmorona ao primeiro sopro. 

Como o tempo é essa coisa inelástica, será essencial fazer o que deve ser feito da forma que te faça bem.

O melhor exercício é o que você mais gosta de fazer, sem vergonha de pular corda ou dançar axé. Relações familiares e amorosas são importantes, mas relacionamentos abusivos intoxicam e vão te anular, existem outras pessoas por aí. Busque faculdades ou empregos que realmente te inspirem, um salário que existe às custas do seu bem estar cobrará uma rescisão amarga.

São atos de autocuidado, e todo cuidado conta, mas isso só acontece com autoconhecimento.

Às vezes a bússola aponta a direção, mas enxergar o caminho até lá é o mais difícil. Entender quem se é, é complexo, perceber como ser outra coisa, mais ainda. Por sorte, você não precisa fazer isso sozinho. 

Os profissionais da saúde mental te ajudam a se enxergar, se aceitar e mudar, se preciso for. 

Cuide de você, e se precisar, nós, psiquiatras e psicológos, estaremos aqui de Janeiro a Janeiro.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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As 256 Depressões

Hoje quero compartilhar um drama dos que escutam dramas. Psiquiatras ainda lutam por um norte na definição de sintomas do mal do século, a depressão.

É relativamente fácil reconhecer algumas doenças, seja caxumba, tuberculose, vitiligo ou osteoporose.

O que não aparece prontamente aos olhos, se mostra em exames simples.

How to Write a Medical Diagnosis: 8 Steps (with Pictures)

Catapora gera as mesmas lesões em qualquer pessoa, diabetes sempre aumenta os níveis da glicose. 

Doenças com mecanismos patológicos conhecidos e que causam um conjunto definido de sintomas são mais fáceis de entender e tem um tratamento mais preciso.  

O processo de diagnóstico na psiquiatria, no entanto, pode ser completamente diferente de outras especialidades.

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Ao invés de analisar um exame de sangue, um teste objetivo ou uma tomografia, nós escutamos as alterações dos pensamentos, humor, comportamentos e outros aspectos da mente.

Se alguém tem um determinado conjunto de sintomas e se eles não são causados por uma alteração hormonal ou neurológica, é feito um diagnóstico psiquiátrico. 

Alguns guias organizam, um a um, os sintomas possíveis para os diferentes quadros, a maior referência mundial é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).Para ser diagnosticada com o que chamamos depressão maior, ou apenas depressão, a pessoa precisa de dois sintomas principais – tristeza e/ou perda do prazer – associado a pelo menos cinco sintomas acessórios – perda ou ganho de peso, insônia ou sono aumentado, apatia ou agitação, perda da energia, sensação de culpa, perda de concentração, dificuldade na tomada de decisões e pensamentos de morte ou suicídio.

Oras, que doença é essa que pode causar  tanto apatia, quanto agitação? Ganho ou perda de peso? Sintomas antagônicos provavelmente são causados por alterações fisiológicas diferentes no corpo de cada pessoa. 

Outro problema, o mesmo sintoma pode ter uma origem totalmente diferente.

Dor de cabeça acontece na enxaqueca e na miopia sem tratamento. Náuseas aparecem na gravidez e na intoxicação alimentar.

Julgar somente pelos sintomas pode levar ao erro.

CCHR: saiba a verdade que os psiquiatras não querem que você saiba

Pedindo uma mãozinha das exatas, calculamos nada menos do que 256 formas diferentes de se ter depressão, se considerarmos todos os subtipos possíveis, esse número passa de 10 mil.

Apresentações absurdamente diferentes para o mesmo diagnóstico.

Estabelecer um tratamento preciso é quase impossível quando temos uma definição tão imprecisa.

Ocorrem deficiências na produção de neurotransmissores, nas estruturas dos neurônios, na regulação de hormônios como o cortisol e inúmeras outras alterações ainda desconhecidas que podem culminar nos sintomas que agrupamos no guarda chuva da depressão.

Isso explica porque parte da psiquiatria ainda existe na tentativa e erro, experimentação, observação da reação às medicações prescritas.

É um caminho potencialmente difícil de ser percorrido, mas com insistência e um profissional qualificado, atinge ótimos resultados. 

Muito melhores que no passado, espero que melhores ainda no futuro. 

O futuro, na verdade, já se revela no horizonte.

As classificações devem abandonar os conceitos sintomáticos e focar nas variações genéticas e alterações metabólicas que geram cada quadro. 

Hoje, testes genéticos de causas específicas de depressão já são acessíveis.

Psychiatric Genetics Program | McGovern Medical School

Mais refinamento e precisão biológica do que jamais visto. 

E eis a minha resposta à fatídica pergunta: “mas eu vou usar esse remédio para o resto da vida?”,  o resto da vida é muito tempo, em alguns anos você muda, os paradigmas se atualizam, seu diagnóstico pode ser outro.

A melhor postura é viver o agora, aproveitar o que temos para hoje e se apegar à sua melhora.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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A inesperada saúde mental dos idosos

Essa semana completamos nove meses desde a declaração oficial da pandemia de COVID-19 pela Organização Mundial de Saúde.

Com a tendência atual de novo aumento dos casos, a situação de isolamento social está longe de ser superada.

Respect older people's rights when exiting the COVID-19 pandemic | European  Union Agency for Fundamental Rights

Desde o começo, a medida mais urgente foi evitar o contato próximo com nossos pais, mães e avós.

Por amor e cuidado, apoiamos o distanciamento e uma pergunta surgiu: como ficará a saúde mental de idosos em isolamento?

Múltiplos levantamentos têm surgido e surpreendem, idosos parecem estar lidando muito melhor do que outras faixas etárias com a situação. Fisicamente mais vulneráveis, mentalmente mais resilientes. 

Um levantamento do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano com mais de 5400 indivíduos, indicou que idosos apresentaram índices significativamente menores de ansiedade, depressão e uso de substâncias iniciados na pandemia.

Essa tendência foi acompanhada por estudos de países diversos, como China, Espanha e Canadá. 

Encouraging older adults to stay active and safe during the coronavirus  pandemic | NCOA

Falta de contato social, risco de infecção grave, dificuldade em usar dispositivos eletrônicos, com tantas fontes de estresse, os achados são no mínimo contra intuitivos. 

É que ninguém contava com um fator de proteção: a sabedoria desenvolvida com a idade.

Não me refiro à quantidade de conhecimento sobre determinado assunto, mas à capacidade de empatia e compaixão, equilíbrio emocional, habilidade de auto reflexão e aceitação de incertezas. 

Deixar as barbas de molho, se resignar frente ao que não pode ser mudado e conviver bem com a própria companhia parecem fazer tão bem para a mente quanto máscaras fazem ao pulmão. 

Precisamente esses traços foram  avaliados e são o maior fator de proteção contra a solidão de um isolamento prolongado.

Idosos sem graves limitações de saúde os tem de sobra. 

Quanto às interações sociais, qualidade é mais importante que quantidade.

Cheerful senior woman making a video call | premium image by rawpixel.com /  McKinsey | Women talk, Make a video, Senior adults

Os que mantiveram videochamadas ou encontros físicos com medida de proteção com uma ou duas pessoas importantes, também se mantiveram protegidos.

Aquela ligação semanal ao seu ente querido realmente faz a diferença. 

A sensação de estar conectado, de pertencimento a algo maior é um conhecido protetor contra adoecimento mental.

Na pandemia, o próprio ato de se isolar adquire o patamar de atitude coletiva.

Quem fica em casa, está cuidando do outro, e isso é poderoso. 

Social isolation: The COVID-19 pandemic's hidden health risk for older  adults, and how to manage it

Enquanto esperamos as vacinas, podemos assimilar um pouco dessa sabedoria.

Aceitar o que não pode ser mudado e valorizar relações interpessoais, pois elas nos sustentam. 

Acima de tudo, não esquecer que estamos nessa juntos, nos isolando, se possível, e nos cuidando sempre.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Não se apegue ao diagnóstico

Você sente um mal estar, dor nas costas, febre ou queda de cabelo e busca um profissional da saúde.

Renomeadas sintomas, as sensações ordinárias serão enxergadas pelo prisma de um diagnóstico, a partir dele o tratamento é instituído.

Torcemos pela cura, rogamos que seja rápida. 

7 Beliefs of Emotionally Healthy People | Psychology Today

Sem o diagnóstico, o sofrimento não encontra a cura. Para tratar é preciso entender.

Um degrau indispensável para conseguir alívio. Como uma bússola, ele guia os passos seguintes no processo de cuidado. 

Na psiquiatria, a busca pelo diagnóstico pode se tornar um drama à parte e nenhum profissional da saúde mental se apressa na conclusão diagnóstica.

O primeiro motivo para isso é o diálogo entre o social e o biológico, a maneira de performar a mesma doença muda conforme o contexto.

Déficits de atenção serão percebidos de forma diferente por um advogado e uma dançarina de balé.

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Variações de humor de uma professora de catequese, não ocorrem da mesma forma que a de uma personal trainer. 

Captar nuances, entender o contexto, ouvir a história é o que afina o olhar para aquele indivíduo e atribui significado médico a comportamentos e estados de espírito.

Sintonizamos a frequência genérica dos manuais diagnósticos ao ritmo de vida de quem sofre. 

Também é desafiador quantificar.

Hipertensão arterial é definida por um número exato em milímetros de mercúrio, qual unidade de medida seria capaz de determinar o valor da tristeza? e da ansiedade? 

Normatizar métricas universais transformaria parâmetros em paradigmas.

A intensidade do sofrimento, ou seja, a experiência subjetiva, legitima a queixa e nada mais. 

Não obstante seu caráter subjetivo, existem alterações bioquímicas, mutações genéticas, enzimas que funcionam demais e neurotransmissores que existem de menos.

Sobre essa base neurológica atuam as intervenções médicas.

A psicoterapia, guiada pela psicologia, atua nas repercussões interpessoais, conflitos internos, e na mudança de padrões de comportamento e pensamento. 

 O diagnóstico, portanto, não consegue existir como algo pontual, uma fotografia capturada em uma consulta, ele é um filme, diversas imagens observadas no período de meses. 

No decorrer desse enredo, o transtorno de ansiedade cede lugar a uma depressão após o parto do primeiro filho, que pode ser a primeira manifestação de um transtorno bipolar piorado pelo ritmo de trabalho. 

Ter um nome, um código, para o que sente pode reconfortar.

No entanto, encarar uma doença incurável, que necessita de medicação por toda a vida, pode assustar.

Uma faca de dois gumes, pode libertar e, se mal compreendida, aprisionar.  

Por isso, minha proposta aos que trazem o sofrimento ao consultório, é que confie no profissional, nós vamos buscar o diagnóstico com você.

Uma visão acolhedora, longitudinal e especializada sobre suas angústias trará bons frutos. 

E finalmente, não se apegue ao diagnóstico, se apegue à melhora.

A neblina mental do novo coronavírus

Duas semanas de incubação, 10 dias de sintomas, recuperação e vida que segue. 

Essa é a história dos infectados pelo novo coronavírus que não precisam de internação, infelizmente, para alguns, a doença parece não ir embora.

Um número considerável de pacientes curados da infecção pelo COVID 19 tem mantido diversos sintomas por meses. O fenômeno tem chocado especialistas, que, pela ausência de informações, estão com dificuldade em conduzir os casos.

Curados de covid-19 podem enfrentar pelo menos 3 sequelas

Grupos propõe o conceito de “covid prolongado”, descrevendo a forma duradoura da doença ou suas sequelas que perduram por meses. 

Fadiga, falta de ar, fibrose pulmonar e alterações cardíacas já eram sequelas mais ou menos esperadas, elas podem ocorrer em outras infecções virais e após graves infecções pulmonares. 

Com a atual pandemia, o número sem precedentes de infectados eleva a situação a outro patamar. O SARS-Cov, também de ascendência chinesa, causador da epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave de 2002 infectou menos de 9 mil pessoas no mundo inteiro.

Se um por cento dos infectados atuais desenvolverem sintomas persistentes, podemos esperar milhares de brasileiros com sérias dificuldades de voltarem ao mercado de trabalho e à saúde plena.

Segundo estudo publicado pela Associação Médica Americana, a mais debilitante das sequelas é algo inesperado. Chamada de “brain fog” ou neblina mental, um déficit cognitivo marcante pode atingir os doentes semanas e meses após a doença.

What is brain fog and what causes it? - ABC News

“Parece que eu estou burra”, foi a descrição de uma paciente que atendi há alguns dias. Pensamentos lentificados, esquecimento de palavras simples, déficits de memória, além de fadiga e insônia pioram a qualidade de vida e nós simplesmente não sabemos como conduzir essas queixas. 

 Um levantamento francês com 120 pacientes 4 meses após alta hospitalar encontrou que um terço apresentava algum grau de amnésia e 28% tinham dificuldade de concentração. Mais da metade com cansaço diário. 

Anthony Fauci,  epidemiologista americano que ganhou destaque durante a pandemia, apontou que tais manifestações são sugestivas da Síndrome da Fadiga Crônica, uma condição médica ainda sem tratamento efetivo.

Médicos que ignoram esse fenômeno podem facilmente desmerecer as queixas e atribuí-las ao estresse e trauma natural do drama pandêmico. Exames com resultado negativo? Não precisa de tratamento. 

 Uma neblina mental diferente atinge até quem nunca teve a doença.  

Manter um placar de recuperados sabendo que o risco de reinfecção é real. Aferir a temperatura das mãos, quando nossa avó já sabia que febre se percebe na testa. Argumentos anti-vacina se replicando diariamente. 

Nice Chubby Dumb Doctor with Stock Footage Video (100% Royalty-free)  1040052089 | Shutterstock

Somente uma grave dificuldade de raciocínio coletivo e informação explica. 

Tempo e educação, espero eu, que iluminem o caminho. As nuvens se dissipando mostram uma segunda onda no horizonte. Apenas os que estão sofrendo de amnésia tem desculpa de acusar alarmismo.

Nós podemos mudar de comportamento, o vírus não.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Homem não chora

Não chorar, não sofrer, não reclamar. Não se abracem, não se beijem, demonstrar afeto é impensável. Seja provedor. O trabalho te edifica. Engula o choro. 

TMW Unlimited's 'Men In Progress' Lynx campaign sees men talk about real  meaning of masculinity - adobo Magazine Online

Se precisar de ajuda é atestado de fracasso, procurar ajuda é impensável. Regras rígidas e pensamento inflexível.

 Com ares de tragédia edipiana, essas normas são ensinadas de pai para filho. Um roteiro triste e solitário com os papéis atribuídos na infância, mas fazem parte da socialização e desenvolvimento masculino até hoje. 

O aumento no número de suicídios, nossa epidemia silenciosa, é liderado majoritariamente por homens. Segundo o Ministério da Saúde, eles têm quatro vezes mais chances de tirarem a própria vida do que as mulheres. 

Are we socializing men to die by suicide?

É um fato que se esconde em plena vista. Temos os números há décadas, mas não falamos a respeito, não existem ações coordenadas direcionadas e não estamos tocando na ferida: porque os homens estão se matando tanto? 

Oficialmente, a depressão acomete duas vezes mais as mulheres. Assim temos um paradoxo estatístico, já que o suicidio acontece basicamente em pessoas deprimidas. Na saúde mental, onde tudo é mais espinhoso, a interface entre o biológico e o social influencia as estatísticas. 

Iludidos por sua suposta invulnerabilidade, homens utilizam menos o sistema de saúde, esperam o agravamento de doenças em estágios iniciais para recorrer a um profissional e são avessos à prevenção e ao autocuidado. 

Marcar uma consulta, seguir orientações e lembrar nome de medicações parece algo distante para eles. Mulheres, por outro lado, buscam cuidados ginecológicos, se ficam grávidas são acompanhadas por enfermeiras e obstetras. Mães faltam ao trabalho para levar o filho ao médico, algo totalmente anormal para um pai. 

Com isso, muitos homens adultos precisam que suas esposas marquem os atendimentos e  que suas mães descrevam os sintomas. Eles nunca aprenderam a usar esses locais de cuidado. As mulheres escolhem os profissionais e tomam as decisões, assim eles não se responsabilizam pela própria saúde. 

The Difference Bewteen A Weak Man And A Strong Man — JaysonGaddis.com

O papel de gênero atribuído à masculinidade se relaciona com força, coragem, racionalidade e poder, essa fantasia é diametralmente oposta à imagem de senso comum que existe de uma pessoa deprimida. 

Mentem até para si próprios que tudo está bem ou enfrentam sofrimentos complexos de término de relacionamentos, de um luto ou uma tristeza sem explicação em uma noite com amigos. Conversas rasas regadas a álcool, que mais entorpecem do que engrandecem.  São mecanismos pobres de negação e distração do problema.

O alcoolismo e uso de substância são marcantes na depressão masculina.  A irritabilidade também. Explosões, impulsividade, xingamentos. Como regra em consultório sempre fico atento, um homem irritado pode ser um homem deprimido. 

Esses fenômenos distraem a todos, se trata o alcoolismo, mas não se fala da tristeza. O humor irritável incomoda, afasta a família, termina casamentos ao invés de suscitar tratamento. 

Com o distanciamento afetivo de uma família cansada, sem amigos que consigam falar sobre sentimentos e sem saber como ou onde buscar apoio profissional, temos essas alarmantes taxas de suicídios, pelo menos em parte, explicadas.

Assim como o Novembro Azul estimula a detecção precoce do câncer de próstata, quero estimular a detecção precoce de sofrimento mental no “sexo forte”.

Homem pode chorar, sofrer, deprimir, falar sobre sentimentos e, com tratamento, se libertar. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Otimismo é importante, mas encare a realidade

“As pessoas podem prever o futuro somente quando ele coincide com seus próprios desejos, e os fatos mais grosseiramente óbvios podem ser ignorados quando não são bem vindos ” – George Orwell 

Facing Reality | Partners in EXCELLENCE Blog -- Making A Difference

Sim, a incapacidade de prever o que contraria seus anseios e ambições certamente já nublou seu raciocínio lógico. 

O termo inglês wishful thinking, que é de difícil tradução, descreve a distorção do entendimento da realidade pelo o que a pessoa quer que seja aconteça. É acreditar em algo pelo desejo (wish) que isso seja verdade, é um viés de desejabilidade.

Os exemplos atuais da pandemia de COVID 19 contextualizam o fenômeno.

Incidência de luz solar, vacina BCG, hidroxicloroquina e outras peculiaridades mato-grossenses eram argumentos para refutar a possibilidade do estado ser atingido pela doença. 

Não fomos só alcançados, como ainda estamos longe de superar a situação. 

Acreditar que uma doença que atingiu de países europeus, ao Irã e metrópoles americanas verdadeiramente não atingiria a cidade em que você mora é uma crença totalmente desvalida de uma análise fria dos fatos.

Como um exercício de engenharia reversa, o wishful thinking começa pelo desejo inicial: Não quero que eu e os que amo sejam atingidos pela doença. Quase de forma instantânea, uma lente enviesada passa a selecionar, ponto a ponto, o que confirma esse futuro idealizado. 

The Dangers of Wishful Thinking | Pubs and Publications

  A projeção do futuro é elevada ao patamar de evento consumado e partir disso o que confirme o desfecho se torna argumento, o que contraria é sumariamente refutado.

Quer observar isso ao vivo e a cores? Pergunte aos seus conhecidos envolvidos em campanhas eleitorais sobre as chances reais de eleição do seu candidato. Se prepare para testemunhar uma verdadeira alquimia de indícios e argumentos que dão a vitória como certa.

Ser otimista quanto ao futuro é necessário, nos motiva a sair de casa, mas no wishful thinking o desejo infla o otimismo. Ele distorce a cognição ao ponto de alguém investir tempo, dinheiro e energia em busca de um resultado altamente improvável e algumas vezes impossível. 

Aplicações em esquemas de pirâmide, a crença na vacina contra o coronavírus antes do Natal, a certeza de uma virada de última hora na corrida eleitoral são frutos dessa cegueira parcial que conforta, justifica ações e ultimamente funciona como defesa à dureza da realidade, sempre indiferente à sentimentos. 

No contexto de disponibilidade infinita de notícias que oferecem versões alternativas de dados concretos, é fácil selecionar as que reforcem o seu viés.

Circulação de notícia falsa, ou fake news, é desafio para as escolas e suas  equipes gestoras, principalmente em ano de eleição

Sem enxergar defeitos, sem perceber falhas nas nossas opiniões não conseguimos fazer um ajuste de rota. Não adotamos decisões enérgicas e rápidas baseadas em ciência, não concretizamos reformas políticas e erramos em decisões da vida pessoal por se apegar a versões editadas dos fatos.

Uma população que perde a visão crítica quanto a suas capacidades, que não aceita dados contraditórios e não pondera com ceticismo, se torna presa fácil para marketeiros, engenheiros sociais e se encanta com barcas furadas como a construção ar condicionado no centro de Cuiabá ou de um veículo leve sobre trilhos.

Fique atento, para evitar uma distopia orwelliana o otimismo é importante, mas encare a realidade.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Precisamos enxergar a cultura do cancelamento

Hipermetropia é o defeito visual que desfoca a visão para perto. O horizonte e a imagem geral permanecem nítidos, mas detalhes demasiado pequenos se tornam indecifráveis. 

Ao enxergar processos sociais e culturais todos sofremos dessa dificuldade para enxergar de perto. Conforme nos distanciamos historicamente, ganhamos clareza. 

Eis que nos últimos anos parece emergir, ainda meio turvo, um novo fenômeno social: a cultura do cancelamento. 

Cancel Culture Is Not Real—At Least Not in the Way You Think | Time

O embrião foi a “call out culture”, que é a exposição pública de quem comete um ato censurável. “Call out” é o ato de tirar satisfação, chamar à fala para uma explicação. 

Era mecanismo de censura moral por movimentos identitários, mas também de pressão a uma inflexão e mudança de comportamento. Com as redes sociais em que número de seguidores é fonte de monetização, ignorar, ao menos teoricamente, gera prejuízos.

Os alvos prediletos são políticos, artistas e jornalistas. Em uma tentativa de gerar dano financeiro, ou para simplesmente não se incomodar por um posicionamento antagônico ao seu, excluímos tudo o que essa pessoa futuramente diga.

Cancel Culture Is Only Getting Worse

Boicote é um ato legítimo, com propósito e desejadamente temporário até que o alvo ceda ou se retrate. Deixar de consumir ou seguir alguém pode fazer parte do diálogo social.

O cancelamento em sua forma extrema, no entanto, retira totalmente a pessoa das redes sociais e de todo conteúdo que se consome. Aos poucos se estende a outras esferas da vida. 

Nunca mais ouvir músicas do cantor cancelado, não ler aquela revista, jamais escutar a opinião do político em quem você não votou na última eleição.

Como um ponto cego, deixamos de enxergar a existência do dissonante, o pensamento diferente se torna inexistente e o resultado é reduzir seu campo de visão. Sem qualquer busca por diálogo ou retratações.

O outro lado, por consequência, terá contato apenas com quem aplaude seu ponto de vista. Duas pessoas que não se enxergam vão viver na ilusão de ótica que a outra não existe. Se existe, não tem absolutamente nada em comum comigo. 

A Parent's Guide to Cancel Culture, Explained by a Teenager | Parents

Uma cegueira voluntária que, na contramão de uma chamada de atenção, é uma tentativa de punição, não uma proposta de reforma. 

Está implícito que outro ser humano é incorrigível, que mudar de opinião é incoerência e ai de quem rever seu pensamento daqui a alguns meses.

Podemos não enxergar agora as consequências sociais de não consumir  tudo o que vai contra seu alinhamento ideológico, certamente veremos com maior clareza em alguns anos, mas é difícil imaginar um desfecho positivo à criação de bolhas políticas e culturais.

Conforme envelhecemos o risco de desenvolver hipermetropia aumenta, precisamos de óculos ou ajuda de alguém mais novo para letras miúdas, em compensação, é possível enxergar o quadro maior, ver além, e até imaginar o que está por vir.

Uma sociedade que não dialoga e não consegue concordar com fatos básicos sobre a realidade porque as fontes discordantes não merecem ser ouvidas dificilmente acabará bem.

What bubble of Maltese society do you belong to? | Random thoughts

Não queremos ser estudados em alguns séculos como uma civilização de bolhas, que só ouvia quem reafirmava suas crenças e não percebeu que isso era uma ameaça à trama social e democracia tão duramente construída.

Portanto, mantenho lendo jornais cuja linha editorial não me agrada,  propostas dos políticos que jurei nunca votar e seguindo o cantor que já disse muita besteira.

Com a visão do todo é possível enxergar mudanças, em nós e nos outros. E você, quem vai descancelar hoje?

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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