Afinal, o que faz o Psiquiatra?

Muito mais que “médico de doido”, o psiquiatra atua nas alterações de humor, como tristeza e irritabilidade, do comportamento, como a impulsividade, e dos pensamentos.

Dr. Manoel Vicente  - Psiquiatra em Cuiabá

A psiquiatria ganhou essa fama, de tratar apenas pessoas com alterações graves, com quadros incapacitantes, porque por muito tempo esse era realmente o público atendido pela especialidade.

Quem tivesse situações mais leves e moderadas tinha poucas alternativas a não ser aprender a conviver com os sintomas e sofrimento durante grande parte da vida. As medicações tinham efeitos colaterais importantes, como ganho de peso e sonolência.

Desse retrato do passado, veio a imagem que alguns ainda tem do médico psiquiatra.

Da década de 90 para cá, a ciência evoluiu, a especialidade cresceu, a compreensão do ser humano só aumentou.

O tratamento com o psiquiatra não é mais sinônimo de “ficar dopado o dia inteiro”, de ganho de peso, nem de piora de qualidade de vida. Da mesma forma, o tratamento não é mais para quem está “no fundo do poço”, com depressão grave, esquizofrenia ou doenças que precisam de internação.

Não só as medicações ficaram mais modernas, aumentaram as abordagens de terapia, e surgiram tratamentos não medicamentosos, como a Estimulação Magnética Transcraniana.

Entendemos que alterações no estilo de vida, com prática de exercícios, meditação e espiritualidade podem ser transformadoras.

Isso mudou tudo. Agora o Psiquiatra deve ser visto como o médico de quem quer se sentir bem, de quem sabe que não merece conviver com sofrimento diário, de quem não está se sentindo no controle da própria vida. Você pode estar com um problema passível de melhora.

Se a sua preocupação são os efeitos colaterais, então fale sobre isso. Não quer ficar dependente de medicação? Questione o profissional. A consulta é o momento de falar e ser ouvido sem julgamentos.

Antes de tratar sintomas da mente, nós lidamos com gente. Não tenha medo, procure atendimento, o vínculo que você vai desenvolver pode iniciar uma nova fase da sua vida.

Depressão tem Tratamento!

Publicado em:https://odocumento.com.br/manoel-vicente-de-barros-afinal-o-que-faz-o-psiquiatra/

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

Os pilares do bem estar

Diz a parábola que dois homens edificaram suas casas, o imprudente a construiu sobre a areia, o sábio, sobre a rocha.

A mesma tempestade atingiu os dois e, como profetizado, apenas a que tinha um firme alicerce sobreviveu.

his house upon the rock - Clip Art Library

Enxergue a construção da sua saúde da mesma forma.

É possível acreditar que estar saudável é a ausência de doenças.

Se o médico não disse que estou morrendo, as medicações controlam os sintomas, logo estou bem, não tenho que investir em mais nada. Essa é a fundação sobre a areia. 

Uma saúde alicerçada apenas no delicado efeito de medicações, sejam para pressão alta, colesterol ou depressão, está fadada a uma instabilização quando os ventos soprarem mais forte.

Efeitos químicos de medicações oscilam, você envelhece, e buscar a alquimia perfeita para um corpo em equilíbrio contínuo ainda não está ao alcance da medicina. 

Quando médicos recomendam hábitos de vida como prática de exercício ou alimentação balanceada, não estão te punindo por estar doente e não fazemos porque gostamos de dar conselhos na vida alheia.

É pela percepção que o plano arquitetônico da sua vida pode ter contribuído para esse estado de adoecimento.

Imagine o remédio como um primeiro pilar da saúde, a caminhada, o segundo, o lazer em família, outro.

Arquitetura grega: inspire-se no maior clássico do ocidente

Um apoio único trás uma sustentação frágil, três, quatro, cinco conseguem te segurar, mesmo que um falhe.

Na saúde mental vale a mesma lógica. Durante a pandemia atendi dezenas de pessoas adoecidas que pela primeira vez vieram ao psiquiatra.

Nunca deprimiram antes, não tinham tendência familiar ao sofrimento mental, inclusive estavam “ótimas” na era pré-covid.

Elas foram atingidas por uma tempestade e ficaram sem sustentação.

De uma hora para outra, perderam contato com amigos, o emprego mudou, não podiam ir a bares, a igreja fechou. Perderam o chão, o teto caiu, elas desabaram.

Quem continuou de pé o fez pois tinha pontos de apoio que permaneceram, harmonia em casa, lazer nos pequenos hábitos ou psicoterapia, por exemplo. 

Esse é o mecanismo da maior parte dos adoecimentos. Pender sua saúde no limite do tolerável, falhar em perceber que quando você se sente bem é o momento ideal para se sentir melhor ainda.

Nos dias de sol é que se corrigem as rachaduras.

Quando as dores nas costas melhoram com os analgésicos, a fisioterapia tem mais efeito, depois é hora de fortalecer na academia, de carregar as compras do jeito correto e finalmente perder o peso que pressiona a coluna para o ciclo ter fim. 

Healthy people carrying different icons relat.. | Free stock vector -  479470 - Nohat - Free for designer

Degrau a degrau, bloco a bloco você constrói a saúde em sua rotina. 

Além das atividades que equilibram o corpo, se integrar à quem está ao seu redor é indispensável, somos seres sociais.

Cultivar um relacionamento de confiança com o marido, harmonia entre a família e ajuda mútua entre amigos.

Esses são recursos sociais que estarão lá para te ouvir, te abraçar e nenhum profissional substitui esse papel. 

Então faça uma vistoria, alguns hábitos podem precisar de reforma e dedique tempo no acabamento das suas relações com os outros.

Se você já se sentiu desabando, aprenda algo com a experiência e se edifique sob bases mais sólidas, valorosas e saudáveis que da última vez. 

Repetir tudo de novo, leva aos mesmos resultados e você quer estar preparado para a próxima tempestade.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

https://www.ipec.med.br/

Pacientes ou clientes?

Com a crescente demanda pela humanização dos sistemas de saúde, algumas práticas e termos rotineiros passam a ser analisados sobre uma nova ótica, mais questionadora.

Um ponto talvez nunca questionado se tornou fonte de debate: quem usa um serviço de saúde é paciente ou cliente.

Essas duas denominações influenciam como a pessoa será abordada e cuidada, com vantagens e desvantagens.

Doctor And Patient Vector Art & Graphics | freevector.com

Nós, médicos, historicamente utilizamos o termo paciente.

Essa escolha pode carregar a imagem equivocada de que quem procura uma unidade de saúde deve estar conformado em esperar, aguardar, sendo paciente com qualquer atendimento que venha a receber. 

De maneira alguma o vocábulo é o causador dos péssimos serviços públicos e particulares que recebemos, eles são ruins por falta de competência ou recursos, mas é uma triste coincidência cobrar de pacientes que tenham paciência. 

A verdade é que bons profissionais enxergam o paciente como alguém momentaneamente fragilizado, que precisa de amparo, em uma visão individualizada e respeitosa. 

Em contraposição à paciente, surge a imagem do cliente.

caixa e cliente mascarados de supermercado 1330243 Vetor no Vecteezy

O cliente tem um papel muito mais ativo na relação de cuidado, ele é melhor atendido, afinal, ninguém quer deixar um cliente esperando.

Todo estabelecimento quer atender as necessidades dos clientes, pois esse tem escolha de buscar outro prestador de serviço, melhor e mais eficiente.

Essa visão tira da zona de conforto aqueles que não se importam com a qualidade do atendimento, e se você já utilizou serviços de saúde, sabe do que estou falando.

Clientes fazem reclamações, exigem, elogiam e participam da construção do serviço que é feito para eles. 

O ponto de conflito acontece porque com o paciente as orientações médicas podem, eventualmente, contrariar suas expectativas, mas são para o seu bem.

O cliente não pode ser contrariado, ele é um consumidor, o pagador, e no comércio, o cliente tem sempre razão.

Quando pacientes exigem que seja feito um exame ou que seja prescrito um antibiótico, eles estão agindo como clientes exigentes e podem tomar péssimas decisões, pois simplesmente não detém conhecimento em saúde.

Nesse momento, a autoridade do carimbo precisa se impor e ser respeitada, goste ou não. 

Sua avó sabia que para perceber febre o melhor era colocar a mão sobre a testa e todo paciente é orientado a medir sua temperatura nas axilas.

É impossível detectar febre a partir da temperatura das mãos, então lojas, shoppings e locais de trabalho que fazem isso não priorizam sua saúde, eles querem te agradar como a um cliente.

Ao procurar orientação e tratamento existe a chance de ser contrariado, alguns remédios são amargos, mais necessários.

Trazer a lógica do comércio e exigir medicamentos e exames como quem vai à padaria certamente te fará mal.

Pacientes merecem respeito, serem ouvidos e bem tratados. Hospitais, clínicas e profissionais precisam atender melhor seus clientes, nós já percebemos isso. 

Health Images | Free Vectors, Stock Photos & PSD

Progressivamente os serviços de qualidade vão ganhando espaço.

Seja exigente, mas tome cuidado, pois clientes impacientes correm o risco de receber o que querem ao invés daquilo que realmente precisam.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

Seu tédio tem algo a dizer

Sem sair de casa. Nada a fazer. Senta no sofá, muda de canal, tudo igual, admira a geladeira, belisca, olha o celular, repete. Manhã monótona, fins de tarde arrastados. Domingos intermináveis.

O tédio não anda respeitando as regras de distanciamento, é uma companhia inconveniente que insiste em ficar.

Young woman feel frustrated, bored during quarantine Premium Vector

Todos conhecemos o desconforto de sentir o tempo se prolongando e a impressão que absolutamente nada de interessante está acontecendo ao seu redor.

Preferimos o amargo de uma experiência ruim que o gosto de nada que o tédio tem.

Neuropsicólogos entendem essa sensação como resultado de um ambiente pouco estimulante e a incapacidade de se focar em qualquer atividade significativa.

Um estado aversivo e incômodo de querer, mas não conseguir se engajar em coisa alguma. 

Ainda bem que o tédio existe.  

Ele é uma pista emocional, uma mensagem direta de descontentamento do seu eu.

Business flat vector concept illustration. Businessman confused about compass  direction. 2130505 Vector Art at Vecteezy

Você se desligou daquilo que te inspira, te motiva e a rota precisa ser ajustada. A enfadonha sensação do repetitivo, de tudo parado, te orienta para novos objetivos, novos rumos. 

É no ócio que surge a criatividade. Igualar “não fazer nada” com ser improdutivo é um entendimento limitado de produtividade.

Esse tempo de respiro é indispensável a novas ideias, invenções e poesias.

O tédio incentiva o retorno de velhos hábitos, porque você parou de ler seus livros? O exercício não te fazia bem? 

Te lembra dos planos não concretizados, daquele curso que você nunca fez, do emprego que era seu sonho. 

O tempo livre, porém, incomoda, e corremos para ocupá-lo.

O tédio é uma punção poderosa, um sinal de incêndio interno, mas as distrações rasas tapeiam esse fogo e esgotam o combustível da inventividade. 

Quando bebês reclamam ou choram, os acalmamos com chupetas, adultos entediados entorpecem seus sentimentos com celulares, verdadeiros bicos eletrônicos. 

Cell Phone addiction - Medvisit

Essa tentativa de sanar o tédio de formas improdutivas está na base de muitos hábitos adoecedores não só pelos eletrônicos, mas também pelo aumento do consumo de álcool e tabaco, por exemplo.

Idas desnecessárias à geladeira que preenchem o estômago, mas não o tempo e compras por impulso que só trazem alegria até você abrir o embrulho. 

Todos esses comportamentos acabam por cronificar o sentimento, o que pode ser desencadeante de um quadro depressivo ou ansioso.

Pesquisas apontam adolescentes cada vez mais entediados e crianças que não sabem como brincar sem um estímulo externo. Nunca houve tanto entretenimento, nunca houve tanto tédio. 

Entenda ele como a parte difícil antes de começar algo novo ou de atribuir um propósito diferente àquela atividade monótona. 

Valorize seu lazer, valorize você.

Mental Health Vector Graphics | Everypixel

Programe não só sua semana de trabalho, mas seus dias de descanso e crie momentos de desconexão. 

Claro, você não precisa, de uma hora para outra, ter um insight incrível.

Pode passear, rever aquele amigo da faculdade, cuidar das plantas, gastar em uma viagem sozinho ou apreciar a graça gratuita das nuvens.

Esse vazio entediante só será preenchido com aquilo que te realiza. 

Até descobrir o que é isso, aguce os ouvidos e escute o que o tédio tem para dizer.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

30 de março, Dia Mundial da Bipolaridade

Todo ano, em 30 de março, é promovido o Dia Mundial da Bipolaridade.

A data remete ao nascimento do incomparável Vincent Van Gogh, que recebeu o diagnóstico póstumo de transtorno afetivo bipolar. 

Van Gogh teve delírios causados por abstinência de álcool, revela estudo -  Planeta

Se tivéssemos um dia para cada diagnóstico médico, precisaríamos rever o calendário para comportar mais alguns meses.

Campanhas de conscientização são criadas para iluminar debates e conceitos que não são bem conhecidos na sociedade. 

Divulgar ao público leigo o conhecimento moderno sobre a bipolaridade é, seguramente, uma das ações mais necessárias na promoção da saúde mental nesse momento. 

Mais de 5% da população pode ter o diagnóstico e ele aumenta o risco de suicidio em quase 30 vezes, assim perdemos Van Gogh.

Campanhas como o Setembro Amarelo e as diversas reportagens sobre depressão na mídia, não fazem sentido sem abordar esse tema. 

O termo Transtorno Afetivo Bipolar, de certa forma, está desatualizado com as recentes descobertas e deve passar por uma revisão. 

O “afetivo” indica que o afeto, o tom emocional, é a função mais afetada pela doença. 

Bipolar projeta a ideia de dois pólos de humor, distintos e antagônicos, o da depressão e o da euforia, também chamada de mania.

Quem oscilar entre esses dois extremos de humor, recebe o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar.

Uma depressão sem seu polo oposto de euforia, é referida como depressão unipolar, que é monotônica, tipicamente melancólica e triste.

What People Get Wrong About Bipolar Disorder | NAMI: National Alliance on  Mental Illness

Essa separação, infelizmente, não faz jus à complexidade do nosso cérebro. Uma circuitaria química e biológica elaborada que não funciona em preto e branco. Sim ou Não. Um ou outro.

Bipolar ou unipolar. Essa visão categórica é artificial, mas foi a base da elaboração de livros e estudos no século XX e ainda exerce grande influência na prática dos profissionais de saúde.

Bipolar Disorder

Da mesma forma que estudiosos do autismo atualizaram o termo para Transtorno do Espectro Autista, cresce o reconhecimento do Transtorno do Espectro Bipolar, que enxerga as diferentes condições de quadros mais sutis de bipolaridade.

A variação afetiva, inclusive, não parece ser a alteração mais importante, mas sim a mudança de estados de energia e disposição.

Inquietação física, direção arriscada no trânsito, impulsividade com gastos excessivos, compulsão alimentar ou a alternância de períodos de esgotamento e cansaço e outros de energia e criatividade podem indicar um quadro de bipolaridade.

Outro ponto essencial, o Transtorno do Espectro Bipolar é uma doença majoritariamente depressiva.

Então qualquer pessoa que já sofreu de depressão, pode ter um quadro bipolar que nunca foi ponderado.

Se o diagnóstico mudar, o tratamento também é outro.

As terapias e medicações que funcionam na depressão comum, pioram ou não tem resposta na bipolaridade.

Genius of Van Gogh — Master of Impasto: Sunflowers Series, 1888–1889 | by  Kevin Shau | Medium

Por isso, qualquer medida efetiva de prevenção ao suicídio e tratamento da depressão passa pelo conhecimento do Transtorno do Espectro Bipolar.

Para que tenhamos mais girassóis amarelos e noites estreladas, vamos falar sobre bipolaridade.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

https://www.ipec.med.br/

Sobre o Dia do Trabalhador

Esse ano tivemos um dia do trabalhador diferente, o feriado caiu no final de semana e ninguém lamentou por isso.

Manter as portas abertas, continuar empregado ou assinando a carteira de seus funcionários é uma conquista após esse ano pandêmico. 

Em teoria trabalhamos para viver. O trabalho é o meio, trocar seu tempo e esforço, para por fim, receber a remuneração que custeie uma vida mais confortável.

Se piscarmos, meio e fim se invertem, e o trabalhar para viver, se torna viver para trabalhar. 

Shocked multitasking businessman stress at work Vector Image

Quando se vive para trabalhar, o emprego passa a ser aquilo que te define, suas peculiaridades, habilidades e personalidade são achatadas no rótulo do seu ofício.

Se apresente, nome e profissão.

O desempregado tem dificuldade de se reconhecer socialmente, não tem lugar, não tem papel. A crise financeira se torna crise existencial.

Para além do campo simbólico, a relação com o trabalho é um enorme determinante de saúde.

A medicina do trabalho é um ramo onde se observam os mecanismos de adoecimento relacionados à atividade laboral e promove medidas de prevenção e promoção à saúde do trabalhador.

Acidentes traumáticos e lesões osteoarticulares relacionadas a trabalho repetitivo por muito tempo lideraram as causas de licenças trabalhistas em todo o mundo, mas a saúde mental parece estar tomando a dianteira e a OMS prevê que a depressão será a maior causa de invalidez a partir desse ano.

Work Accident Vector Art & Graphics | freevector.com

Na vida de consultório observo o quanto esse afastamento é particularmente doloroso.

Baixa auto estima, sensação de culpa e desesperança são sintomas de depressão, a pessoa já está dominada por esses sentimentos e ainda precisa carregar o peso de um atestado médico, que é a declaração, no papel, de sua invalidez.

O concursado, via de regra, não se esforçou pelo emprego dos sonhos, ele se dedicou pela estabilidade, pela segurança.

Quando a depressão o atinge, ele é o que mais resiste ao afastamento e sofre duas vezes, pela doença e por se negar a utilizar de sua estabilidade para recuperar a saúde.

Percebi também uma lição cruel nesse processo.

O afastado por saúde mental é facilmente discriminado como preguiçoso ou que faz “corpo mole”, colegas de profissão e os departamentos de recursos humanos são particularmente insensíveis.

Eles esquecem que também são gente, e quem está vivo pode adoecer.

Esses escarnecedores, que julgavam e ofendiam, são os que mais sofrem quando se veem diante do seu adoecimento.

Resistem ao diagnóstico, ao tratamento, ao afastamento e, no final, terminam ficando doentes por mais tempo. O que se fala contra os outros, volta em dobro para você.

O ambiente de trabalho saudável age de forma exatamente oposta.

O emprego pode proteger contra adoecimento mental, promover socialização, crescimento individual e coletivo. 

As taxas de afastamento por depressão não são uniformes, atingem com maior impacto setores da educação, saúde e segurança pública.

Isso aponta que o problema não é o trabalhador, as pessoas, mas os ambientes e sistemas sob os quais elas trabalham.  

Reformas estruturais, acabar com a visão da exaustão como virtude e burocracias estigmatizantes dos setores de recursos humanos e previdenciários são um caminho difícil, mas necessário. 

Ilustração em vetor conceito abstrato de esgotamento emocional. colapso  psicológico, esgotamento, sobrecarga emocional, consulta com psicólogo,  saúde mental, estresse e metáfora abstrata de ansiedade. | Vetor Grátis

Questione como a burocracia do seu local de trabalho trata os que estão adoecidos.

Perceba se seu emprego é fonte de frustração ou realização.

Você pode estar adoecendo para ganhar um pão amargo. 

E, antes de tudo, nutra um olhar mais empático pelos que precisaram dar um tempo de tudo isso.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

Mais atendimentos, mais tratamentos

A venda de ansiolíticos e antidepressivos tem aumentado nos últimos anos e, na pandemia, disparou.

Antes da crítica precipitada contra um uso supostamente desnecessário, precisamos perceber que isso é consequência direta do acesso crescente a tratamentos e profissionais de saúde mental.

Going Off Antidepressants - Harvard Health Publishing - Harvard Health

Segundo o Conselho Federal de Farmácia, em 2020 os brasileiros compraram 17% mais medicações para humor e ansiedade que no ano anterior.

Esse dado não fica deslocado da tendência observada em outros anos. Estamos sempre consumindo mais.

Quando essa estatística vêm à tona, é comum a conclusão que nossa sociedade está medicalizando o sofrimento e estresse intrínsecos à vida.

Como se não estivéssemos encarando nossos problemas “por conta própria” e procurando nos anestesiar.

Isso não faz sentido algum.

Buscar por atendimento e usar medicações é justamente uma forma de reconhecimento e enfrentamento de um problema.

Não é um ato passivo, uma fuga. Quem consulta um profissional está buscando a resolução de suas aflições e investindo em uma vida melhor. 

A Associação Brasileira de Psiquiatria reporta aumento superior a 80% nos atendimentos em consultórios de psiquiatras no país.

A demanda por terapia, feita pela psicologia, aumentou sobretudo virtualmente, com os teleatendimentos que vieram para ficar. 

Why People Avoid Mental Health Treatment - CBA - Blog

Quem é atendido, recebe tratamento, então o aumento estatístico do uso de fármacos é uma consequência esperada dessas consultas.

Motivo para comemorar, não para se alarmar.

Por outro lado, é necessário ponderar se estamos, no médio e longo prazo, estruturando serviços de saúde mental que realmente transformam vidas e não meramente apagam incêndios emocionais com pílulas mágicas. 

Existe a ideia que o psiquiatra “só passa remédio e pronto”, mas segundo diversos levantamentos, os clínicos gerais são os maiores prescritores de benzodiazepínicos, os tarja preta que tem potencial de dependência.

A falta de acesso ao especialista, portanto, induz ao uso de medicações menos sofisticadas e seguras.

A escassez de bons tratamentos não farmacológicos e serviços de psicologia acessíveis é outro fator que pressiona o uso de medicações.

O médico nem sempre pode indicar o melhor tratamento, ele faz o que é possível. Se a terapia não está disponível, a cronificação do medicamento se torna a regra. 

O Brasil é o país com o maior número absoluto de psicólogos do mundo, são mais de 390 mil, segundo o Conselho Brasileiro de Psicologia. Os Estados Unidos têm apenas 170 mil, a título de comparação.

Com esses números e as novas tecnologias de atendimento virtual, temos tudo para uma grande expansão de serviços de terapia.

Uma cruzada ideológica pela não utilização de medicações ou criticar quem as usa induz ao subtratamento e subdiagnóstico, tendo pouco a oferecer de forma prática.

É fruto de desconhecimento ou de nunca ter sentido na pele o sofrimento mental.

Não devemos ter medo de utilizar o que a medicina tem a oferecer, desde que seja preservada a visão integrada, multidisciplinar e de longo prazo.

Sair das sombras do adoecimento é possível à luz do atendimento humanizado. Que o número de pessoas atendidas e acolhidas sempre cresça, durante a após a pandemia.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

https://www.ipec.med.br/

O realismo fantástico não pode ser o novo normal

O realismo fantástico é uma corrente artística presente na literatura, em filmes, novelas e outras expressões de arte que tem em sua essência a naturalização de elementos pitorescos no mundo real.

Realismo Mágico - Toda Matéria

Nos últimos anos, parece que fomos transportados para um desses romances.

A realidade lógica, crível, aquela que convencionamos chamar de “normal”, parece ter se esvaído.

Como fumaça, ficou fraca e se foi.

Ninguém percebeu quando exatamente, mas eventos fantásticos têm acontecido sem muitas explicações.

Algo deve ter mudado em 2013. Foi sobrenatural ver milhões de brasileiros tomando as ruas. O breve despertar do gigante adormecido mexeu com as tramas da normalidade. 

O GIGANTE ACORDOU - YouTube

Protestos. Todos juntos, ninguém soltava a mão de ninguém. Se olhando, de repente os personagens repararam os discursos diferentes.

Nem todo mundo concordava, mas tudo bem, a camisa do Brasil era ecumênica, não importava pra qual time você torcesse.

As obras da Copa se tornaram esqueletos abandonados pelas cidades.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete a um. Ganhamos nossa sátira, a piada interna, e toda semana tem um sete a um diferente. 

Eleições caricaturadas com políticos que conseguiram roubar até a nossa camisa verde e amarela. Um impeachment com reviravoltas, ligações grampeadas, traições.

Os torcedores, talvez com o grito engasgado do futebol, assistiram às votações do Legislativo com fogos de artifício, gritos, vaias e confetes. Difícil explicar para quem não viveu, mais difícil ainda concordar com os que estavam lá. 

A concordância desapareceu da história, ela se foi quando olhos focaram mais nas telas do que em outros olhos. A realidade se partiu em muitas.

Narrativas diferentes, verdades alternativas, a expansão das fake news e bolhas virtuais criaram versões diferentes do mesmo país. 

corona_virus

Opiniões divergentes são essenciais, discordar do que é a realidade objetiva é obra de ficção, e a fantasia ganhou ares de distopia.

Acompanhamos áudios vazados que tornaram o Jornal Nacional muito mais eletrizante que qualquer novela.

Dois desastres ambientais gigantescos.

Uma greve de caminhoneiros que literalmente fez o país parar, assim, do dia pra noite.

O realismo fantástico também distorce o tempo, ele é mais cíclico e aleatório que linear, se repete e você se perde na ordem dos fatos. 

Mal terminada a disputa de 2018, as peças já se posicionavam para a de 2022. 2020 já foi? Parece que não terminou. Aquele julgamento de três anos atrás foi anulado e será reprisado em 2021, assistir de novo é sempre pior que a primeira vez. Qual ser supremo julga a constitucionalidade dessa realidade?

Sobre o tempo e os processos de desenvolvimento – My School Educação  Bilíngue

O surreal não tem limites e a primeira grande pandemia em um mundo globalizado, deixa a humanidade de joelhos para um vilão invisível.

Hospitais são transformados em trincheiras. As ruas são um baile de mascarados com emoções sombracelhadas e relações entre cortadas. 

A normalização do atípico, do absurdo, do improvável pelos que o vivem é o que caracteriza o realismo fantástico.

Ninguém se pergunta o porquê, não ficam chocados em como aquilo é possível, só aceitam o “novo normal” como se a vida sempre tivesse sido assim. 

Se serei mais um personagem que se acostuma, quero ao menos ser o que questiona o que nos trás até aqui e tenta fazer alguma coisa a respeito. 

Um pouco de monotonia seria fantástico pra variar.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

Dismorfismo digital, fuja dessa armadilha

A forma como vemos os outros influencia nossa própria auto imagem e estima. Não dá de negar, nós nos comparamos.

Se as pessoas estão cada vez mais nas redes sociais, progressivamente, selfies, stories e postagens diárias estão moldando como você se vê.

Quando alguém se foca ou amplifica supostos defeitos físicos, dizemos que existe um dismorfismo corporal.

The 'ugly truth' about Body Dysmorphic Disorder - BBC News

Sempre se enxerga acima do peso, com um nariz muito grande ou uma boca muito pequena, por exemplo.

O fluxo de homens e mulheres que buscam o alívio dessa angústia nos consultórios de estética, estaria muito melhor atendida nos divãs da psicologia.

O transtorno dismórfico corporal é, na verdade, uma grande contra indicação para cirurgias plásticas. 

Se antes todos queriam se parecer com a celebridade que tinha a foto editada na revista, hoje cresce a busca por ser sua própria versão editada em um aplicativo ou ficar igual ao influenciador de corpo digitalizado.

São metas irreais de perfeição e o único resultado possível é a frustração. 

Desde que os filmes fotográficos ficaram no passado, repetir a mesma foto cinco, dez ou vinte vezes faz parte do ritual que antecede uma postagem.

Apenas uma será usada e galerias inteiras de retratos secretamente imperfeitos nunca serão vistas.

Pela selfie postável, usamos filtros e editores, retocando detalhes, e se tornando virtualmente outra pessoa, essa que merece ser compartilhada. 

Pin on Best of Dazed Fashion

Com todo mundo fazendo isso ao mesmo tempo, consumir um feed de atualizações é como passear entre vitrines bem montadas, manequins posicionados, cada peça escolhida a dedo para atrair e se vender.

Nos reflexos dessa vitrine você se vê, mas esse vidro te distorce. Uma lupa focada na falha, que não valoriza seus melhores ângulos e a iluminação não te favorece. 

O impacto desse processo de interação social mediada por algoritmos é perturbador. Na minha adolescência cheia de espinhas, agradeço por não ter tantas câmeras.  

Além da distorção da imagem física, existe a distorção do próprio estilo de vida.

O processo de esconder o feio de baixo do tapete e mostrar apenas o ponto alto de uma viagem, o luxo, o invejável faz a vida de qualquer um parecer sem graça demais. 

What is FOMO - FOMO in eCommerce Marketing – Mageplaza

Ficar em casa é entediante, cumprir obrigações frustrante, e se nada de compartilhável acontece na vida cotidiana é como se você nem estivesse vivendo.

É tédio por comparação. 

Esse é o dismorfismo digital, ele cria expectativas irreais, metas inatingíveis e mina a auto estima de jovens e adultos.

Ele é o efeito colateral de uma dose muito alta de Internet. 

Entenda a vida perfeita divulgada em uma rede social como o produto de uma lapidação, é aquilo que querem que você veja.

É a ponta de um iceberg, em que existem muitas camadas bem mais profundas que ficam lá, submersas. 

Aproveitando o nosso distanciamento forçado, se aproxime mais de si próprio e fuja dessa armadilha.

Aquela beleza padronizada não pode te definir, não meça seu progresso com a régua de outra pessoa e lembre que as melhores coisas da vida não cabem em uma postagem.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

“2ª onda traz de volta memórias traumáticas, tudo de uma vez”

Manoel Vicente explica as consequências do repique da pandemia no psicológico das pessoas

REPRODUÇÃO DE ENTREVISTA AO MIDIANEWS

https://www.midianews.com.br/cotidiano/2-onda-traz-de-volta-memorias-traumaticas-tudo-de-uma-vez/394796

Toque de recolher, “lockdown”, isolamento em casa, recorde de mortes. Termos que muitos acreditavam ter ficado em 2020 voltaram com força ainda maior em 2021.

Essa repetição fez com que muitas pessoas entrassem em um ciclo de ansiedade e angústia por terem que reviver as memórias da primeira onda da pandemia.

“O nosso corpo armazena as memórias traumáticas de um jeito diferente. Elas ficam profundas, mas voltam à tona e trazem toda a carga emocional, de medo, de angústia do evento inicial. É como se você estivesse revendo o mesmo filme várias e várias vezes.”, afirma.


O psiquiatra Manoel Vicente fala sobre gatilhos e enfrentar a realidade

Além de falar sobre os gatilhos da segunda onda, o profissional também fala sobre o medo da ruína financeira, que muitas vezes é maior do que adoecer.

Confira a entrevista na íntegra:

MidiaNews – O senhor escreveu recentemente um artigo sobre gatilhos gerados pela Covid-19. Como esses gatilhos são acionados? Como eles agem na mente?

Manoel Vicente de Barros – O que eu reparei com meus amigos e familiares foi que todos estavam entrando no mesmo turbilhão emocional da primeira onda do início da pandemia. Foi um momento muito difícil para todos, para mim e para qualquer pessoa, mesmo aquelas que tinham um grande equilíbrio emocional, todas ficaram afetadas.

E de repente eu tenho notado que a população tem ficado ansiosa, até sentindo sintomas físicos de ansiedade como batedeira no peito, frio na barriga, falta de ar, sentindo com toda a força tudo que significou o início da pandemia. Isso é o gatilho. É um evento, uma lembrança, uma frase ou qualquer estímulo externo que nos remete a um trauma anterior.

E eu percebi que falar de lockdown, de UTIs lotadas trazia e carregava as mesmas reações que aconteceram no começo. O nosso corpo armazena as memórias traumáticas de um jeito diferente. Elas ficam profundas, mas voltam à tona e trazem toda a carga emocional, de medo, de angústia do evento inicial. É como se você estivesse revendo o mesmo filme várias e várias vezes.

MidiaNews – De que forma a segunda onda pode afetar o psicológico da população?

Manoel Vicente de Barros – A segunda onda afeta de forma diferente da primeira porque ela traz essa sensação de que está tudo acontecendo do mesmo jeito. No ultimo ano, cada pessoa tem uma história de drama diferente, dentro de casa, com sua própria saúde de um adoecimento grave ou o próprio sofrimento de observar o número crescente de mortes, de adoecidos, de pessoas com sequelas. A segunda onda traz toda essas memórias traumáticas para o presente e você revive com muita intensidade, porque vem tudo de uma vez.

Na prática isso deixa as pessoas paralisadas, sem saber o que fazer e meio que dominadas por esse medo. Outras podem ir para um outro caminho e passar a entregar os pontos, falar que se é para ficar assim, melhor não seguir mais nenhuma medida de proteção necessária e que vai voltar à vida normal porque não está adiantando nada fazer lockdown.

De um lado as pessoas ficam dominadas pelo medo e do outro elas passam a negar o problema e entrar em um comportamento que só piora a situação. Ser dominado pelo medo e pela ansiedade é muito ruim, mas deixar de seguir as medidas de proteção porque você está cansado do problema, não vai resolver. Só vai nos jogar em uma espiral de números progressivamente maiores, de agravos, de mais sequelas e de mais adoecimento. Então, nenhuma das duas posições ajuda.

Victor Ostetti/MidiaNews

Dr Manoel Vicente de Barros

O profissional afirma que é importante olhar para as conquistas que já aconteceram, como a vacina

MidiaNews – Como fazer para que todas aquelas sensações ruins da primeira onda não voltem com força?

Manoel Vicente de Barros – A melhor forma é se ancorar nas mudanças positivas que tivemos nesses últimos dez meses, e elas não foram poucas. No início da pandemia ninguém sabia se iria existir uma vacina, tinha uma expectativa de 5, 10 anos até uma vacina estar disponível. Hoje o nosso problema é produção e distribuição. Mas mais de 7 milhões de pessoas – incluindo os profissionais de saúde que estarão nos hospitais trabalhando, muito mais saudáveis, muito mais seguros e, portanto, espalhando menos o vírus – já foram vacinadas. Os idosos mais frágeis também já estão tendo acesso à vacina, que é muito diferente de como a história começou.

Os médicos entenderam muito melhor como cuidar da doença. Então hoje a eficiência do tratamento é muito melhor do que no início da pandemia.

MidiaNews – O que o senhor tem percebido de sua vivência no consultório neste um ano de pandemia?

Manoel Vicente de Barros – O que eu e outros psiquiatras observamos é que várias pessoas que nunca precisaram da saúde mental vieram até o consultório. Pessoas que sempre lidaram com estresse do dia a dia fazendo exercício físico, encontrando amigos, vendo a família ou viajando, de repente foram privados de todos esses escapes pro estresse tradicional.

Além disso, a pandemia ainda colocou o medo a insegurança do futuro da própria vida, dos familiares e do futuro financeiro das pessoas. Isso acaba tornando qualquer um, por mais estável, equilibrado, por mais centrado que seja, suscetível a um transtorno de ansiedade, a um transtorno depressivo ou a uma alteração simples do sono.

E esse primeiro contato das pessoas com a saúde mental, entendo que até diminuiu o preconceito, as barreiras que antes existiam e elas passaram a perceber, de forma geral, que qualquer um, se for colocado em determinada situação, pode se sentir mal, desenvolver um transtorno de ansiedade e pode precisar de ajuda.

MidiaNews – A crise financeira também afeta o emocional. O que tem sido mais complicado, o medo de adoecer ou o de empobrecer?

As sociedades que passaram por esses traumas conseguem se reerguer com muito mais união e força. Um drama que é vivido coletivamente acaba aproximando pessoas que nunca se aproximariam em outras situações.

Manoel Vicente de Barros – Talvez o medo da ruína financeira seja mais generalizado do que o medo de adoecer. Eu observo que muitas pessoas não têm medo de adoecer, elas sabem que a taxa de mortalidade é baixa e entendem que a maioria de nós vamos ter contato com o vírus e após algum tempo vamos ficar bem.

A crise financeira, no entanto, atinge todo mundo até quem está trabalhando e tem uma renda garantida. Mas a preocupação financeira tem sido diferente, porque ela desperta a raiva. Os comerciantes atingidos pelas medidas restritivas ficam com raiva de serem proibidos de trabalhar, os funcionários ficam com raiva de não poderem ter o salário garantido no final do mês e as pessoas que querem que a doença vá embora logo, ficam com raiva de que medidas mais drásticas não foram tomadas mais cedo e por mais tempo. É raiva dos dois lados.

MidiaNews – Qual a melhor forma de lidar com a perda de familiares e pessoas próximas?

Manoel Vicente de Barros  Existe a perda dos que faleceram, sem dúvida a mais dolorosa, e também existe a perda do contato, de ver, do toque do abraço. As duas são muitos sentidas. Netos estão sem ver os seus avós há muitos meses e isso também é um tipo de perda familiar.

Não existe forma certa de lidar com o luto, porque ele é único para cada pessoa e em cada momento de vida. Sem dúvida vai marcar. Aqueles que foram nunca serão esquecidos, é uma ferida que sempre sangra, a pessoa sofre agora e depois de alguns anos, quando se lembrar, ainda vai ser doloroso. O luto é o outro lado do amor, só faz falta quem te marcou, e quem te fazia bem, por isso dói tanto.

Cada pessoa precisa ter o seu mecanismo, a sua jornada de como encarar isso. Você pode se apoiar nos seus familiares, nos amigos, na religião. Um profissional de saúde mental só é necessário quando o luto interrompe a vida de alguém e essa pessoa não consegue mais se reerguer e retomar a sua vida. Nesse momento a saúde mental pode ajudar, mas o luto faz parte da vida humana.

MidiaNews – É possível que a pandemia deixe trauma psicológico na população? Se sim, quais?

Manoel Vicente de Barros – Com certeza haverá traumas. Como em qualquer situação de catástrofe, como um acidente ambiental, uma guerra ou uma pandemia, sempre ficarão marcas, mas vamos precisar superar.

Mas as sociedades que passaram por esses traumas conseguem se reerguer com muito mais união e força. Um drama que é vivido coletivamente acaba aproximando pessoas que nunca se aproximariam em outras situações. E isso acaba trazendo perspectivas novas dos valores da vida, o que é importante, o que tem que ser vivido agora e o que não pode ficar para depois.

Então, apesar do trauma como algo negativo, ele também deve nos fazer repensar a forma como vivemos, a velocidade em que as coisas estão, a sustentabilidade do nosso estilo de vida. Depois dessa pandemia, o mundo está mais preparado para lidar com novas adversidades.

MidiaNews – Qual a melhor forma de encarar e viver a realidade que temos agora?

Manoel Vicente de Barros – A melhor forma é fazer a sua parte para o dia de hoje. É você fazer o seu isolamento, as suas medidas de higiene pensando no agora. É impossível prever onde estaremos no mês que vem, como estarão as condições da doença e financeira. Então não faz sentido você sofrer agora o que vai acontecer no mês que vem.

Existe a oração da serenidade, que é muito usada em grupos de saúde mental, em que se busca a serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, a coragem para mudar o que for possível e a sabedoria para discernir entre as duas coisas.

Você só tem controle pelo que você faz, então siga as medidas de segurança, fique em casa se puder e se cuide, porque isso é o máximo que somos capazes de fazer.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

Para ajudar, ações falam mais que palavras

O bom exemplo é poderoso e irresistível.

Argumentar, escolher palavras, insistir nem sempre é suficiente para convencer.

Até onde você está disposto a ir por quem você ama?

A dúvida mais recorrente na saúde mental não é a respeito de medicações ou diagnósticos, o que pais, mães e filhos querem saber é como efetivamente ajudar seu familiar em sofrimento. 

Cartaz brilhante proteção familiar com crianças. | Vetor Premium

Se convencer de um diagnóstico é difícil, de um tratamento, mais ainda. Por isso o abandono da terapia é a regra e as recaídas que se seguem, inevitáveis.

A angústia de tantos familiares é justamente como persuadir essa pessoa a seguir orientações, marcar a consulta e usar um medicamento. 

Me procuram na expectativa de um manual, dicas de quais palavras usar.

Se essa receita estivesse pronta, tenha certeza que eu compartilharia. Ela simplesmente não existe. 

Minha resposta frustra expectativas, mas pode ser um exercício de empatia instantânea. Se você quer que seu ente querido faça o tratamento, esteja você disposto a fazer o seu. 

Eu? Eu não! Quem tem problema não sou eu. 

How to Say NO! 2 Leadership Techniques to be More Assertive

É fácil entender a negação quando o paciente é você.

Todas as condições em saúde mental sofrem alguma influência genética, se sua filha tem depressão recorrente, transtorno bipolar ou síndrome do pânico, é não só possível, como provável que você também tenha tido alguma manifestação dessas condições ao longo da vida.

O fato de ela estar mais grave e precisando de maior atenção no momento, não te torna imune a suas predisposições. 

O momento mais catártico de um primeiro atendimento é fazer a lista de familiares biológicos que tiveram ou podem ter tido algum diagnóstico em saúde mental.

Informações vão surgindo e conforme a lista de familiares irritados, melancólicos, explosivos, com problemas com álcool ou crises de nervos vai se preenchendo é enxergado o contexto.

Muitos nunca foram diagnosticados, afinal isso é privilégio de quem se colocou na situação de paciente, se a pessoa nunca pisou em um consultório, não significa que ela não precisava ter pisado.

A situação fica contextualizada na história da família.

Existe um enredo transgeracional em todo adoecimento. Guiado por genes, mas tantas vezes reforçado pela herança não biológica de hábitos e valores.

Quando a pessoa se senta na frente de um psiquiatra ou psicólogo, a sensação de ser a ovelha negra, a exceção, o problemático, a louca emerge naturalmente, e o abandono do tratamento é uma negação desses rótulos.

Não existe argumentação forte o suficiente se a família também mantém esse estigma.

O familiar que se dispõe a ser atendido e avaliado por um profissional da saúde mental e adota hábitos saudáveis está naturalizando o tratamento e diminuindo a carga moral agregada.

Deixa tudo mais leve.

Aquele que nega qualquer abordagem, está implicitamente declarando que o problema existe exclusivamente no outro e repete, ele próprio, o comportamento de negar ajuda. 

Anglické idiomy – od N po Y - Anglictinarychlo.sk

O fardo pesa quando apenas um carrega.

Admitir a tendência familiar não é aceitar uma condenação, é autoconhecimento, uma dose de realismo. Reconhecer predisposições em saúde permite prevenir adoecimentos futuros. 

Premium Vector | Son on his father shoulders

Para mudar o comportamento do outro, mude o seu primeiro. Se entregue com ações e haja exatamente da forma como gostaria que essa pessoa agisse.

Você vai ganhar pelo exemplo e não pelas palavras.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

https://www.ipec.med.br/