Eco-Ansiedade: como o fogo, ela está se alastrando

Imagine que você pretende viver por várias décadas.

Imagine saber, sem sombra de dúvida, que em alguns anos você assistirá catástrofes e quando tudo começar não será possível voltar atrás.

Imagine ter convicção que as próximas gerações vão herdar um mundo com o meio ambiente e atmosfera devastada.

Só de escrever essa introdução já sinto ansiedade, ter esse futuro reforçado por todo relatório, notícia e estudo científico sério gera um novo fenômeno psicológico: a eco-ansiedade.

A Associação Psicológica Americana definiu o termo como o medo crônico de uma catástrofe ambiental.

Assim como o nível dos mares, a tensão emocional em torno das mudanças e de futuras calamidades climáticas tem aumentado progressivamente. 

O tema sempre pareceu distante, aquecimento global é importante para um futuro inespecífico e “não vai me atingir”. Com a pandemia de COVID 19 também pensamos assim.

Além disso, o cérebro humano não enxerga mudanças que ocorrem no decorrer de anos. Não agimos se os resultados só aparecem na próxima década, somos péssimos em prevenção. 

Essa visão limitada atrapalha, por exemplo, o planejamento de uma aposentadoria, e dificulta a encarar as verdades sobre as consequências climáticas da atividade humana. 

O assunto é tão desconfortável que criamos um silêncio social em torno disso, em Cuiabá o tema só aparece no período da seca e queimadas e se encerra com a chuva do caju.  Já estamos em clima de eleição e meio ambiente nunca pautou a escolha de governantes em nossa cidade.

Temas que geram ansiedade alimentam líderes negacionistas, o discurso dessas figuras são o ansiolítico. É só discursar que é tudo mentira, que aquecimento global não existe e que as queimadas sempre aconteceram e pronto, discussão encerrada. 

O problema é que criar uma “versão alternativa dos fatos”, antigamente chamada de mentira,  não muda a realidade. Não funcionou na pandemia e não vai funcionar com a natureza, acredite.

Os próximos quatro anos devem ser mais secos e mais quentes do que os quatro anos anteriores, o pantanal encolherá mais um pouco e a fauna será mais destruída. Perderemos milhares de hectares da Amazônia e a humidade que ela trás à atmosfera. 

Afirmações simples, sólidas e, pelo visto, inevitáveis.

Quem opta por reconhecer a realidade precisa lidar com a sensação de impotência, que aliada a falta de perspectivas de futuro sustentável gera a eco-ansiedade. 

A ansiedade normalmente é ligada a distorções dos fatos e a sensações físicas como falta de ar. A eco-ansiedade vem justamente do não distorcer os dados e a falta de ar é bem real.

O desconforto sentido pelas imagens do pantanal em chamas, de animais morrendo e da amazônia cada vez mais devastada, deve progressivamente aumentar essa sensação em nosso estado.

Espero que, como fogo, a eco-ansiedade se alastre e seja o combustível de mudanças que precisamos. Torço para que seja a tempo. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

http://www.ipec.med.br/

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A Trajetória da Ofensa

Ela não surgiu do nada, não é fruto do éter, não veio do vácuo. 

É filha das estruturas, cresceu nas entrelinhas, se alimenta de indiretas.

Vou contar a trajetória da Ofensa, a Ofensa Contra Pessoas Deprimidas.

Pude acompanha-la em vários momentos, quando ela nasce e quando mata. 

Sem nenhuma formalidade ela aparece no trabalho contra a colega afastada para tratamento. Na mesa de almoço com uma cadeira vazia, quando o filho não conseguiu sair da cama e interagir com a família. 

Seu papel é ferir. Aumenta o sofrimento, nunca vai traz positividade a quem sofre. 

Aumenta a carga do outro e o autor não ganha a nada em troca.

Não volta atrás, como a flecha, mas esta só atinge um alvo. A palavra vai mais longe, quem ouvir pode sair ferido.

Atinge a criança com depressão, a adolescente que esconde seus cortes e o seu  amigo sorridente que sofre por dentro.

A Ofensa sai da boca de Alguém. Para esse Alguém ela é semente, a semeadura foi opcional, mas a colheita vai ser obrigatória.

Alguém é humano, é uma pessoa, e sendo pessoa, pode ficar deprimido.

É nesse momento, de sofrimento e dor que a colheita acontece. 

Alguém que era acostumado a julgar a vida alheia, vai sentir todo o peso das Ofensas. 

“Você é um fraco”, “é uma decepção”, “está louca”, “é preguiçoso”, elas vão ressoar, atormentar e tornar muito mais difícil o tratamento de Alguém que optou por ofender.

Só existe um caminho para se livrar desse peso: falar.

A palavra que pode ferir, também pode curar.  Assumir que ofendeu, se haver com seus preconceitos,  enfrentar de forma honesta suas próprias Ofensas.

Todos podemos ser esse Alguém, podemos também deixar de ser.

Ajude mais, ofenda menos. 

Você não sabe o quanto isso fere o outro, está atingindo quem nem imagina, e te garanto que na hora da colheita vai se arrepender, sem ofensas. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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O problema não era o bode

A apócrifa parábola narra a história de uma família cheia descontentamentos e reclamações sobre a sua casa. Um sábio intervém e coloca um bode no meio da sala de estar. Mau cheiro, perda do espaço e o berrar incessante, a vida é desconfortável com o bode ali. 

Uma vez retirado o animal, todos se entreolham e percebem o lar maravilhoso que compartilhavam. 

Existe outra história recorrente com bodes, nela a família se sente mais confortável com o problema dentro da casa. 

Conviver com um familiar com uma doença psiquiátrica pode ser uma situação difícil. A doença é o problema. 

Conflitos na relação, reprovação escolar e demissão do emprego. Discussões à mesa e lágrimas à cama.

Quando um lar possui um filho, mãe ou irmão que sofre, por exemplo,  de depressão ou transtorno bipolar e a doença se estende por anos sem tratamento é fácil acusar o familiar de ser causador de todo problema da casa. 

O bode expiatório. 

Segundo a tradição judaica, era o bode que carregava consigo os pecados de um povo. 

Atribuir os conflitos, a infelicidade e os vícios da família ao único membro que se trata com um psiquiatra ou psicólogo é o movimento instintivo de quem não percebe suas próprias falhas. 

Quem busca tratamento profissional normalmente melhora, se sente mais dono de si, se afirma enquanto indivíduo e, bem, estabiliza os seus problemas. 

Progressivamente a “estourada” passa a se controlar. O ansioso fica mais calmo. Quem chorava, agora sorri. 

Em algum momento aquela pessoa se tornou equilibrada, tem segurança de suas opiniões, toma decisões e se torna mais independente. 

Paradoxalmente, é quando ela mais incomoda. 

Uma vez tratada a doença, todos se entreolham e percebem o lar adoecido que compartilhavam. 

Acabou aquele culpado fácil, problemas também eram causados por quem apontava o dedo. 

A depressão não estragou o casamento, o casamento infeliz desencadeou a depressão. A mãe gritava com o filho porque ele não estudava, mas os  gritos atrapalhavam o estudo. A filha “problemática” não desestruturava a casa, um lar desestruturado lhe trouxe problemas. 

Confrontados com realizações mais incômodas que um bode na sala, é nesse momento que a família sabota o tratamento.

Critica as medicações, fala mal “das idéias da psicóloga” e tenta, a todo custo, colocar a pessoa de volta em seu lugar, o de bode expiatório.

Famílias que se envolvem nos tratamentos, que estão dispostas a também melhorar, constroem um lar sadio, menos propenso ao adoecimento.

Expiar pode ser purificação, reconhecer e assumir consequência por equívocos. No bom cuiabanês, ixpiá é olhar, prestar atenção. 

Não expie suas falhas com seu familiar, ixpie você as suas.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Setembro Amarelo: Vamos falar sobre o que salva vidas


O Setembro Amarelo é a campanha de prevenção ao suicidio, mas ainda falamos pouco sobre o que realmente consegue evitar esse desfecho, o tratamento profissional. 

O conteúdo em redes sociais e veículos profissionais foca em empatia, entender o outro, estender a mão e outras variações.

Isso é ótimo, claro, precisamos desses valores e eles são o primeiro passo para agir, mas são só isso mesmo, o primeiro passo. 

A discussão sobre acesso a tratamento fica de fora e predominam dicas e conselhos de como ser feliz e cuidar da mente. 

Oras, quem consegue ficar bem por esforço próprio não está gravemente doente e não deve tentar suicidio em um futuro próximo. 

Suicídio não é um evento aleatório, inevitável, quase acidental, ele é resultado de doenças que não conseguimos tratar antes. Por isso é uma causa evitável de morte.

Como um prédio que acumula ferrugem por anos, acumular sofrimento, dor emocional e ter uma depressão não tratada corrói as estruturas internas de qualquer pessoa.

O suícídio é o colapso, o desmoronamento, o fim dramático, por isso chama a atenção. O processo que levou a ao ato começou muito antes.

Pessoas deprimidas melhoram com tratamento efetivo conduzido por um profissional especialista.

Um exemplos simples, a medicação psiquiátrica Carbonato de Lítio, ou somente Lítio, reduz de forma inequívoca o risco de suicidio em pacientes deprimidos. 

Estudos apontam até 5 vezes menos risco de suicidio em pessoas que usam essa medicação. 

Existem até mesmo correlação entre o nível de lítio na água de uma cidade e seus índices de suicidio. Quanto mais lítio, menos suicídios

O uso precisa ser feito com acompanhamento de psiquiatras experientes.

Como pode a discussão sobre o acesso a profissionais e a medicamentos como o Lítio ficar de fora da conscientização do Setembro Amarelo?

Quantos psiquiatras atuam na rede pública da sua cidade? Quantas semanas se espera para conseguir uma consulta?

Em Cuiabá e Várzea Grande diversos hospitais privados e públicos não possuem psiquiatras responsáveis pelos pacientes, cabe a família procurar um profissional. É cada um por si. 

Os planos de saúde do estado não tem convênio com hospitais para internação dos casos graves, não existe atendimento especializado 24 horas na rede pública (nossa vizinha Campo Grande tem quatro serviços do tipo). 

O hospital Adauto Botelho míngua sem vagas e estrutura. Na prática, não existe hospital estruturado para tratar uma pessoa com ideação suicida em nossa rede, pública ou particular. 

Como podemos ignorar esses fatos, usar um lacinho amarelo e sorrir? 

Não quero jogar um balde de água fria em quem está engajado na campanha, se envolva, o assunto é importante, mas como a campanha é de conscientização, vamos tomar consciência do que realmente causa impacto.

Quem está doente precisa sim de empatia, como qualquer pessoa, mas precisa, com muita pressa, é de ajuda efetiva, especializa e rápido.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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