O problema não era o bode

A apócrifa parábola narra a história de uma família cheia descontentamentos e reclamações sobre a sua casa. Um sábio intervém e coloca um bode no meio da sala de estar. Mau cheiro, perda do espaço e o berrar incessante, a vida é desconfortável com o bode ali. 

Uma vez retirado o animal, todos se entreolham e percebem o lar maravilhoso que compartilhavam. 

Existe outra história recorrente com bodes, nela a família se sente mais confortável com o problema dentro da casa. 

Conviver com um familiar com uma doença psiquiátrica pode ser uma situação difícil. A doença é o problema. 

Conflitos na relação, reprovação escolar e demissão do emprego. Discussões à mesa e lágrimas à cama.

Quando um lar possui um filho, mãe ou irmão que sofre, por exemplo,  de depressão ou transtorno bipolar e a doença se estende por anos sem tratamento é fácil acusar o familiar de ser causador de todo problema da casa. 

O bode expiatório. 

Segundo a tradição judaica, era o bode que carregava consigo os pecados de um povo. 

Atribuir os conflitos, a infelicidade e os vícios da família ao único membro que se trata com um psiquiatra ou psicólogo é o movimento instintivo de quem não percebe suas próprias falhas. 

Quem busca tratamento profissional normalmente melhora, se sente mais dono de si, se afirma enquanto indivíduo e, bem, estabiliza os seus problemas. 

Progressivamente a “estourada” passa a se controlar. O ansioso fica mais calmo. Quem chorava, agora sorri. 

Em algum momento aquela pessoa se tornou equilibrada, tem segurança de suas opiniões, toma decisões e se torna mais independente. 

Paradoxalmente, é quando ela mais incomoda. 

Uma vez tratada a doença, todos se entreolham e percebem o lar adoecido que compartilhavam. 

Acabou aquele culpado fácil, problemas também eram causados por quem apontava o dedo. 

A depressão não estragou o casamento, o casamento infeliz desencadeou a depressão. A mãe gritava com o filho porque ele não estudava, mas os  gritos atrapalhavam o estudo. A filha “problemática” não desestruturava a casa, um lar desestruturado lhe trouxe problemas. 

Confrontados com realizações mais incômodas que um bode na sala, é nesse momento que a família sabota o tratamento.

Critica as medicações, fala mal “das idéias da psicóloga” e tenta, a todo custo, colocar a pessoa de volta em seu lugar, o de bode expiatório.

Famílias que se envolvem nos tratamentos, que estão dispostas a também melhorar, constroem um lar sadio, menos propenso ao adoecimento.

Expiar pode ser purificação, reconhecer e assumir consequência por equívocos. No bom cuiabanês, ixpiá é olhar, prestar atenção. 

Não expie suas falhas com seu familiar, ixpie você as suas.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

http://www.ipec.med.br/

Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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