As 256 Depressões

Hoje quero compartilhar um drama dos que escutam dramas. Psiquiatras ainda lutam por um norte na definição de sintomas do mal do século, a depressão.

É relativamente fácil reconhecer algumas doenças, seja caxumba, tuberculose, vitiligo ou osteoporose.

O que não aparece prontamente aos olhos, se mostra em exames simples.

How to Write a Medical Diagnosis: 8 Steps (with Pictures)

Catapora gera as mesmas lesões em qualquer pessoa, diabetes sempre aumenta os níveis da glicose. 

Doenças com mecanismos patológicos conhecidos e que causam um conjunto definido de sintomas são mais fáceis de entender e tem um tratamento mais preciso.  

O processo de diagnóstico na psiquiatria, no entanto, pode ser completamente diferente de outras especialidades.

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Ao invés de analisar um exame de sangue, um teste objetivo ou uma tomografia, nós escutamos as alterações dos pensamentos, humor, comportamentos e outros aspectos da mente.

Se alguém tem um determinado conjunto de sintomas e se eles não são causados por uma alteração hormonal ou neurológica, é feito um diagnóstico psiquiátrico. 

Alguns guias organizam, um a um, os sintomas possíveis para os diferentes quadros, a maior referência mundial é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).Para ser diagnosticada com o que chamamos depressão maior, ou apenas depressão, a pessoa precisa de dois sintomas principais – tristeza e/ou perda do prazer – associado a pelo menos cinco sintomas acessórios – perda ou ganho de peso, insônia ou sono aumentado, apatia ou agitação, perda da energia, sensação de culpa, perda de concentração, dificuldade na tomada de decisões e pensamentos de morte ou suicídio.

Oras, que doença é essa que pode causar  tanto apatia, quanto agitação? Ganho ou perda de peso? Sintomas antagônicos provavelmente são causados por alterações fisiológicas diferentes no corpo de cada pessoa. 

Outro problema, o mesmo sintoma pode ter uma origem totalmente diferente.

Dor de cabeça acontece na enxaqueca e na miopia sem tratamento. Náuseas aparecem na gravidez e na intoxicação alimentar.

Julgar somente pelos sintomas pode levar ao erro.

CCHR: saiba a verdade que os psiquiatras não querem que você saiba

Pedindo uma mãozinha das exatas, calculamos nada menos do que 256 formas diferentes de se ter depressão, se considerarmos todos os subtipos possíveis, esse número passa de 10 mil.

Apresentações absurdamente diferentes para o mesmo diagnóstico.

Estabelecer um tratamento preciso é quase impossível quando temos uma definição tão imprecisa.

Ocorrem deficiências na produção de neurotransmissores, nas estruturas dos neurônios, na regulação de hormônios como o cortisol e inúmeras outras alterações ainda desconhecidas que podem culminar nos sintomas que agrupamos no guarda chuva da depressão.

Isso explica porque parte da psiquiatria ainda existe na tentativa e erro, experimentação, observação da reação às medicações prescritas.

É um caminho potencialmente difícil de ser percorrido, mas com insistência e um profissional qualificado, atinge ótimos resultados. 

Muito melhores que no passado, espero que melhores ainda no futuro. 

O futuro, na verdade, já se revela no horizonte.

As classificações devem abandonar os conceitos sintomáticos e focar nas variações genéticas e alterações metabólicas que geram cada quadro. 

Hoje, testes genéticos de causas específicas de depressão já são acessíveis.

Psychiatric Genetics Program | McGovern Medical School

Mais refinamento e precisão biológica do que jamais visto. 

E eis a minha resposta à fatídica pergunta: “mas eu vou usar esse remédio para o resto da vida?”,  o resto da vida é muito tempo, em alguns anos você muda, os paradigmas se atualizam, seu diagnóstico pode ser outro.

A melhor postura é viver o agora, aproveitar o que temos para hoje e se apegar à sua melhora.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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A inesperada saúde mental dos idosos

Essa semana completamos nove meses desde a declaração oficial da pandemia de COVID-19 pela Organização Mundial de Saúde.

Com a tendência atual de novo aumento dos casos, a situação de isolamento social está longe de ser superada.

Respect older people's rights when exiting the COVID-19 pandemic | European  Union Agency for Fundamental Rights

Desde o começo, a medida mais urgente foi evitar o contato próximo com nossos pais, mães e avós.

Por amor e cuidado, apoiamos o distanciamento e uma pergunta surgiu: como ficará a saúde mental de idosos em isolamento?

Múltiplos levantamentos têm surgido e surpreendem, idosos parecem estar lidando muito melhor do que outras faixas etárias com a situação. Fisicamente mais vulneráveis, mentalmente mais resilientes. 

Um levantamento do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano com mais de 5400 indivíduos, indicou que idosos apresentaram índices significativamente menores de ansiedade, depressão e uso de substâncias iniciados na pandemia.

Essa tendência foi acompanhada por estudos de países diversos, como China, Espanha e Canadá. 

Encouraging older adults to stay active and safe during the coronavirus  pandemic | NCOA

Falta de contato social, risco de infecção grave, dificuldade em usar dispositivos eletrônicos, com tantas fontes de estresse, os achados são no mínimo contra intuitivos. 

É que ninguém contava com um fator de proteção: a sabedoria desenvolvida com a idade.

Não me refiro à quantidade de conhecimento sobre determinado assunto, mas à capacidade de empatia e compaixão, equilíbrio emocional, habilidade de auto reflexão e aceitação de incertezas. 

Deixar as barbas de molho, se resignar frente ao que não pode ser mudado e conviver bem com a própria companhia parecem fazer tão bem para a mente quanto máscaras fazem ao pulmão. 

Precisamente esses traços foram  avaliados e são o maior fator de proteção contra a solidão de um isolamento prolongado.

Idosos sem graves limitações de saúde os tem de sobra. 

Quanto às interações sociais, qualidade é mais importante que quantidade.

Cheerful senior woman making a video call | premium image by rawpixel.com /  McKinsey | Women talk, Make a video, Senior adults

Os que mantiveram videochamadas ou encontros físicos com medida de proteção com uma ou duas pessoas importantes, também se mantiveram protegidos.

Aquela ligação semanal ao seu ente querido realmente faz a diferença. 

A sensação de estar conectado, de pertencimento a algo maior é um conhecido protetor contra adoecimento mental.

Na pandemia, o próprio ato de se isolar adquire o patamar de atitude coletiva.

Quem fica em casa, está cuidando do outro, e isso é poderoso. 

Social isolation: The COVID-19 pandemic's hidden health risk for older  adults, and how to manage it

Enquanto esperamos as vacinas, podemos assimilar um pouco dessa sabedoria.

Aceitar o que não pode ser mudado e valorizar relações interpessoais, pois elas nos sustentam. 

Acima de tudo, não esquecer que estamos nessa juntos, nos isolando, se possível, e nos cuidando sempre.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Não se apegue ao diagnóstico

Você sente um mal estar, dor nas costas, febre ou queda de cabelo e busca um profissional da saúde.

Renomeadas sintomas, as sensações ordinárias serão enxergadas pelo prisma de um diagnóstico, a partir dele o tratamento é instituído.

Torcemos pela cura, rogamos que seja rápida. 

7 Beliefs of Emotionally Healthy People | Psychology Today

Sem o diagnóstico, o sofrimento não encontra a cura. Para tratar é preciso entender.

Um degrau indispensável para conseguir alívio. Como uma bússola, ele guia os passos seguintes no processo de cuidado. 

Na psiquiatria, a busca pelo diagnóstico pode se tornar um drama à parte e nenhum profissional da saúde mental se apressa na conclusão diagnóstica.

O primeiro motivo para isso é o diálogo entre o social e o biológico, a maneira de performar a mesma doença muda conforme o contexto.

Déficits de atenção serão percebidos de forma diferente por um advogado e uma dançarina de balé.

Premium Vector | Female diverse faces of different women seamless pattern.

Variações de humor de uma professora de catequese, não ocorrem da mesma forma que a de uma personal trainer. 

Captar nuances, entender o contexto, ouvir a história é o que afina o olhar para aquele indivíduo e atribui significado médico a comportamentos e estados de espírito.

Sintonizamos a frequência genérica dos manuais diagnósticos ao ritmo de vida de quem sofre. 

Também é desafiador quantificar.

Hipertensão arterial é definida por um número exato em milímetros de mercúrio, qual unidade de medida seria capaz de determinar o valor da tristeza? e da ansiedade? 

Normatizar métricas universais transformaria parâmetros em paradigmas.

A intensidade do sofrimento, ou seja, a experiência subjetiva, legitima a queixa e nada mais. 

Não obstante seu caráter subjetivo, existem alterações bioquímicas, mutações genéticas, enzimas que funcionam demais e neurotransmissores que existem de menos.

Sobre essa base neurológica atuam as intervenções médicas.

A psicoterapia, guiada pela psicologia, atua nas repercussões interpessoais, conflitos internos, e na mudança de padrões de comportamento e pensamento. 

 O diagnóstico, portanto, não consegue existir como algo pontual, uma fotografia capturada em uma consulta, ele é um filme, diversas imagens observadas no período de meses. 

No decorrer desse enredo, o transtorno de ansiedade cede lugar a uma depressão após o parto do primeiro filho, que pode ser a primeira manifestação de um transtorno bipolar piorado pelo ritmo de trabalho. 

Ter um nome, um código, para o que sente pode reconfortar.

No entanto, encarar uma doença incurável, que necessita de medicação por toda a vida, pode assustar.

Uma faca de dois gumes, pode libertar e, se mal compreendida, aprisionar.  

Por isso, minha proposta aos que trazem o sofrimento ao consultório, é que confie no profissional, nós vamos buscar o diagnóstico com você.

Uma visão acolhedora, longitudinal e especializada sobre suas angústias trará bons frutos. 

E finalmente, não se apegue ao diagnóstico, se apegue à melhora.

A neblina mental do novo coronavírus

Duas semanas de incubação, 10 dias de sintomas, recuperação e vida que segue. 

Essa é a história dos infectados pelo novo coronavírus que não precisam de internação, infelizmente, para alguns, a doença parece não ir embora.

Um número considerável de pacientes curados da infecção pelo COVID 19 tem mantido diversos sintomas por meses. O fenômeno tem chocado especialistas, que, pela ausência de informações, estão com dificuldade em conduzir os casos.

Curados de covid-19 podem enfrentar pelo menos 3 sequelas

Grupos propõe o conceito de “covid prolongado”, descrevendo a forma duradoura da doença ou suas sequelas que perduram por meses. 

Fadiga, falta de ar, fibrose pulmonar e alterações cardíacas já eram sequelas mais ou menos esperadas, elas podem ocorrer em outras infecções virais e após graves infecções pulmonares. 

Com a atual pandemia, o número sem precedentes de infectados eleva a situação a outro patamar. O SARS-Cov, também de ascendência chinesa, causador da epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave de 2002 infectou menos de 9 mil pessoas no mundo inteiro.

Se um por cento dos infectados atuais desenvolverem sintomas persistentes, podemos esperar milhares de brasileiros com sérias dificuldades de voltarem ao mercado de trabalho e à saúde plena.

Segundo estudo publicado pela Associação Médica Americana, a mais debilitante das sequelas é algo inesperado. Chamada de “brain fog” ou neblina mental, um déficit cognitivo marcante pode atingir os doentes semanas e meses após a doença.

What is brain fog and what causes it? - ABC News

“Parece que eu estou burra”, foi a descrição de uma paciente que atendi há alguns dias. Pensamentos lentificados, esquecimento de palavras simples, déficits de memória, além de fadiga e insônia pioram a qualidade de vida e nós simplesmente não sabemos como conduzir essas queixas. 

 Um levantamento francês com 120 pacientes 4 meses após alta hospitalar encontrou que um terço apresentava algum grau de amnésia e 28% tinham dificuldade de concentração. Mais da metade com cansaço diário. 

Anthony Fauci,  epidemiologista americano que ganhou destaque durante a pandemia, apontou que tais manifestações são sugestivas da Síndrome da Fadiga Crônica, uma condição médica ainda sem tratamento efetivo.

Médicos que ignoram esse fenômeno podem facilmente desmerecer as queixas e atribuí-las ao estresse e trauma natural do drama pandêmico. Exames com resultado negativo? Não precisa de tratamento. 

 Uma neblina mental diferente atinge até quem nunca teve a doença.  

Manter um placar de recuperados sabendo que o risco de reinfecção é real. Aferir a temperatura das mãos, quando nossa avó já sabia que febre se percebe na testa. Argumentos anti-vacina se replicando diariamente. 

Nice Chubby Dumb Doctor with Stock Footage Video (100% Royalty-free)  1040052089 | Shutterstock

Somente uma grave dificuldade de raciocínio coletivo e informação explica. 

Tempo e educação, espero eu, que iluminem o caminho. As nuvens se dissipando mostram uma segunda onda no horizonte. Apenas os que estão sofrendo de amnésia tem desculpa de acusar alarmismo.

Nós podemos mudar de comportamento, o vírus não.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Homem não chora

Não chorar, não sofrer, não reclamar. Não se abracem, não se beijem, demonstrar afeto é impensável. Seja provedor. O trabalho te edifica. Engula o choro. 

TMW Unlimited's 'Men In Progress' Lynx campaign sees men talk about real  meaning of masculinity - adobo Magazine Online

Se precisar de ajuda é atestado de fracasso, procurar ajuda é impensável. Regras rígidas e pensamento inflexível.

 Com ares de tragédia edipiana, essas normas são ensinadas de pai para filho. Um roteiro triste e solitário com os papéis atribuídos na infância, mas fazem parte da socialização e desenvolvimento masculino até hoje. 

O aumento no número de suicídios, nossa epidemia silenciosa, é liderado majoritariamente por homens. Segundo o Ministério da Saúde, eles têm quatro vezes mais chances de tirarem a própria vida do que as mulheres. 

Are we socializing men to die by suicide?

É um fato que se esconde em plena vista. Temos os números há décadas, mas não falamos a respeito, não existem ações coordenadas direcionadas e não estamos tocando na ferida: porque os homens estão se matando tanto? 

Oficialmente, a depressão acomete duas vezes mais as mulheres. Assim temos um paradoxo estatístico, já que o suicidio acontece basicamente em pessoas deprimidas. Na saúde mental, onde tudo é mais espinhoso, a interface entre o biológico e o social influencia as estatísticas. 

Iludidos por sua suposta invulnerabilidade, homens utilizam menos o sistema de saúde, esperam o agravamento de doenças em estágios iniciais para recorrer a um profissional e são avessos à prevenção e ao autocuidado. 

Marcar uma consulta, seguir orientações e lembrar nome de medicações parece algo distante para eles. Mulheres, por outro lado, buscam cuidados ginecológicos, se ficam grávidas são acompanhadas por enfermeiras e obstetras. Mães faltam ao trabalho para levar o filho ao médico, algo totalmente anormal para um pai. 

Com isso, muitos homens adultos precisam que suas esposas marquem os atendimentos e  que suas mães descrevam os sintomas. Eles nunca aprenderam a usar esses locais de cuidado. As mulheres escolhem os profissionais e tomam as decisões, assim eles não se responsabilizam pela própria saúde. 

The Difference Bewteen A Weak Man And A Strong Man — JaysonGaddis.com

O papel de gênero atribuído à masculinidade se relaciona com força, coragem, racionalidade e poder, essa fantasia é diametralmente oposta à imagem de senso comum que existe de uma pessoa deprimida. 

Mentem até para si próprios que tudo está bem ou enfrentam sofrimentos complexos de término de relacionamentos, de um luto ou uma tristeza sem explicação em uma noite com amigos. Conversas rasas regadas a álcool, que mais entorpecem do que engrandecem.  São mecanismos pobres de negação e distração do problema.

O alcoolismo e uso de substância são marcantes na depressão masculina.  A irritabilidade também. Explosões, impulsividade, xingamentos. Como regra em consultório sempre fico atento, um homem irritado pode ser um homem deprimido. 

Esses fenômenos distraem a todos, se trata o alcoolismo, mas não se fala da tristeza. O humor irritável incomoda, afasta a família, termina casamentos ao invés de suscitar tratamento. 

Com o distanciamento afetivo de uma família cansada, sem amigos que consigam falar sobre sentimentos e sem saber como ou onde buscar apoio profissional, temos essas alarmantes taxas de suicídios, pelo menos em parte, explicadas.

Assim como o Novembro Azul estimula a detecção precoce do câncer de próstata, quero estimular a detecção precoce de sofrimento mental no “sexo forte”.

Homem pode chorar, sofrer, deprimir, falar sobre sentimentos e, com tratamento, se libertar. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Otimismo é importante, mas encare a realidade

“As pessoas podem prever o futuro somente quando ele coincide com seus próprios desejos, e os fatos mais grosseiramente óbvios podem ser ignorados quando não são bem vindos ” – George Orwell 

Facing Reality | Partners in EXCELLENCE Blog -- Making A Difference

Sim, a incapacidade de prever o que contraria seus anseios e ambições certamente já nublou seu raciocínio lógico. 

O termo inglês wishful thinking, que é de difícil tradução, descreve a distorção do entendimento da realidade pelo o que a pessoa quer que seja aconteça. É acreditar em algo pelo desejo (wish) que isso seja verdade, é um viés de desejabilidade.

Os exemplos atuais da pandemia de COVID 19 contextualizam o fenômeno.

Incidência de luz solar, vacina BCG, hidroxicloroquina e outras peculiaridades mato-grossenses eram argumentos para refutar a possibilidade do estado ser atingido pela doença. 

Não fomos só alcançados, como ainda estamos longe de superar a situação. 

Acreditar que uma doença que atingiu de países europeus, ao Irã e metrópoles americanas verdadeiramente não atingiria a cidade em que você mora é uma crença totalmente desvalida de uma análise fria dos fatos.

Como um exercício de engenharia reversa, o wishful thinking começa pelo desejo inicial: Não quero que eu e os que amo sejam atingidos pela doença. Quase de forma instantânea, uma lente enviesada passa a selecionar, ponto a ponto, o que confirma esse futuro idealizado. 

The Dangers of Wishful Thinking | Pubs and Publications

  A projeção do futuro é elevada ao patamar de evento consumado e partir disso o que confirme o desfecho se torna argumento, o que contraria é sumariamente refutado.

Quer observar isso ao vivo e a cores? Pergunte aos seus conhecidos envolvidos em campanhas eleitorais sobre as chances reais de eleição do seu candidato. Se prepare para testemunhar uma verdadeira alquimia de indícios e argumentos que dão a vitória como certa.

Ser otimista quanto ao futuro é necessário, nos motiva a sair de casa, mas no wishful thinking o desejo infla o otimismo. Ele distorce a cognição ao ponto de alguém investir tempo, dinheiro e energia em busca de um resultado altamente improvável e algumas vezes impossível. 

Aplicações em esquemas de pirâmide, a crença na vacina contra o coronavírus antes do Natal, a certeza de uma virada de última hora na corrida eleitoral são frutos dessa cegueira parcial que conforta, justifica ações e ultimamente funciona como defesa à dureza da realidade, sempre indiferente à sentimentos. 

No contexto de disponibilidade infinita de notícias que oferecem versões alternativas de dados concretos, é fácil selecionar as que reforcem o seu viés.

Circulação de notícia falsa, ou fake news, é desafio para as escolas e suas  equipes gestoras, principalmente em ano de eleição

Sem enxergar defeitos, sem perceber falhas nas nossas opiniões não conseguimos fazer um ajuste de rota. Não adotamos decisões enérgicas e rápidas baseadas em ciência, não concretizamos reformas políticas e erramos em decisões da vida pessoal por se apegar a versões editadas dos fatos.

Uma população que perde a visão crítica quanto a suas capacidades, que não aceita dados contraditórios e não pondera com ceticismo, se torna presa fácil para marketeiros, engenheiros sociais e se encanta com barcas furadas como a construção ar condicionado no centro de Cuiabá ou de um veículo leve sobre trilhos.

Fique atento, para evitar uma distopia orwelliana o otimismo é importante, mas encare a realidade.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Precisamos enxergar a cultura do cancelamento

Hipermetropia é o defeito visual que desfoca a visão para perto. O horizonte e a imagem geral permanecem nítidos, mas detalhes demasiado pequenos se tornam indecifráveis. 

Ao enxergar processos sociais e culturais todos sofremos dessa dificuldade para enxergar de perto. Conforme nos distanciamos historicamente, ganhamos clareza. 

Eis que nos últimos anos parece emergir, ainda meio turvo, um novo fenômeno social: a cultura do cancelamento. 

Cancel Culture Is Not Real—At Least Not in the Way You Think | Time

O embrião foi a “call out culture”, que é a exposição pública de quem comete um ato censurável. “Call out” é o ato de tirar satisfação, chamar à fala para uma explicação. 

Era mecanismo de censura moral por movimentos identitários, mas também de pressão a uma inflexão e mudança de comportamento. Com as redes sociais em que número de seguidores é fonte de monetização, ignorar, ao menos teoricamente, gera prejuízos.

Os alvos prediletos são políticos, artistas e jornalistas. Em uma tentativa de gerar dano financeiro, ou para simplesmente não se incomodar por um posicionamento antagônico ao seu, excluímos tudo o que essa pessoa futuramente diga.

Cancel Culture Is Only Getting Worse

Boicote é um ato legítimo, com propósito e desejadamente temporário até que o alvo ceda ou se retrate. Deixar de consumir ou seguir alguém pode fazer parte do diálogo social.

O cancelamento em sua forma extrema, no entanto, retira totalmente a pessoa das redes sociais e de todo conteúdo que se consome. Aos poucos se estende a outras esferas da vida. 

Nunca mais ouvir músicas do cantor cancelado, não ler aquela revista, jamais escutar a opinião do político em quem você não votou na última eleição.

Como um ponto cego, deixamos de enxergar a existência do dissonante, o pensamento diferente se torna inexistente e o resultado é reduzir seu campo de visão. Sem qualquer busca por diálogo ou retratações.

O outro lado, por consequência, terá contato apenas com quem aplaude seu ponto de vista. Duas pessoas que não se enxergam vão viver na ilusão de ótica que a outra não existe. Se existe, não tem absolutamente nada em comum comigo. 

A Parent's Guide to Cancel Culture, Explained by a Teenager | Parents

Uma cegueira voluntária que, na contramão de uma chamada de atenção, é uma tentativa de punição, não uma proposta de reforma. 

Está implícito que outro ser humano é incorrigível, que mudar de opinião é incoerência e ai de quem rever seu pensamento daqui a alguns meses.

Podemos não enxergar agora as consequências sociais de não consumir  tudo o que vai contra seu alinhamento ideológico, certamente veremos com maior clareza em alguns anos, mas é difícil imaginar um desfecho positivo à criação de bolhas políticas e culturais.

Conforme envelhecemos o risco de desenvolver hipermetropia aumenta, precisamos de óculos ou ajuda de alguém mais novo para letras miúdas, em compensação, é possível enxergar o quadro maior, ver além, e até imaginar o que está por vir.

Uma sociedade que não dialoga e não consegue concordar com fatos básicos sobre a realidade porque as fontes discordantes não merecem ser ouvidas dificilmente acabará bem.

What bubble of Maltese society do you belong to? | Random thoughts

Não queremos ser estudados em alguns séculos como uma civilização de bolhas, que só ouvia quem reafirmava suas crenças e não percebeu que isso era uma ameaça à trama social e democracia tão duramente construída.

Portanto, mantenho lendo jornais cuja linha editorial não me agrada,  propostas dos políticos que jurei nunca votar e seguindo o cantor que já disse muita besteira.

Com a visão do todo é possível enxergar mudanças, em nós e nos outros. E você, quem vai descancelar hoje?

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Fuja das pílulas mágicas

Se não fizer bem, mal não fazer. E com essa certeza é iniciado o uso desnecessário de mais um suplemento vitamínico.

O apelo é poderoso e remete a conceitos arraigados desde a infância. Vitamina sempre foi algo bom e sua mãe pedia que você engolisse todas as colheradas de verduras vitaminadas. 

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O crescimento do mercado de vitaminas industrializadas é constante nos últimos anos e, sem dúvida, foi suplementado pela atual pandemia, que induziu uma corrida aos botes e consumo desenfreado de quaisquer esperança encapsulada que estivessem ao alcance. 

O efeito psicológico de ingerir uma dose diária de saúde é o que vende, sensação de um corpo saudável e dever cumprido: “hoje eu me cuidei”. 

As promessas do uso de vitaminas para melhoria de qualidade de vida e prevenção de doenças são diversas, vão de mais inteligência, retardar o envelhecimento, emagrecimento a prevenir doenças

Diversas pesquisas testaram essas afirmações e a conclusão parece ser uníssona:  A maioria dos suplementos não previnem doenças crônicas ou morte, seu uso não é justificado e eles devem ser evitados.

Spinach contains a steroid-like chemical and scientists want it banned

Suplementos são tratamento para quem tem deficiência de vitaminas.

A Força Tarefa de Serviços Preventivos americana conduziu uma enorme análise com mais de 400.000 pessoas, sem constatar qualquer benefício do consumo de multivitamínicos na prevenção de doenças cardiovasculares ou câncer.

Em outro estudo, quase 6 mil médicos foram observados e tiveram sua inteligência e memória avaliada por 12 anos, uma parte usou multivitamínicos, outros mantiveram sua alimentação normal, resultado: nenhuma diferença cognitiva entre os dois grupos. 

Em 2013 a Revista da Associação Médica Americana publicou um ensaio sobre os efeitos do uso de nutrientes antioxidantes e surpreendentemente descobriu aumento de mortalidade nos que consumiam Vitamina E, Vitamina A e betacaroteno sem necessidade. 

Algumas vitaminas são chamadas hidrossolúveis, elas se dissolvem em água e são excretadas na urina quando estão em excesso, como a Vitamina C. 

O consumo da “vitamina da imunidade” em grandes quantidades pode não te proteger de doenças, mas garante um xixi nobre, mais caro e nutrido. 

How does vitamin D help build healthy bones?

Comprimidos devem ser usados para quem tem um diagnóstico, uma deficiência, um problema que justifique se expor ao risco e ao custo de usa-los.

Ao que parece, o grande divisor de águas em prevenção de mortalidade e doenças é o acesso à comida, à lazer, exercícios físicos e aos recursos que permitem pagar por tudo isso. É uma pena pagar por pílulas mágicas que não te ajudam em nada. 

Suspeite de tudo que promete benefícios sem riscos. Bem estar não pode ser encapsulado, gaste seu dinheiro com o que te faz sorrir e o nutra sua saúde mental. 

O que não faz bem, pode sim te fazer mal.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Outubro Rosa, vamos nos tocar

Setembro se vai e os ipês amarelos já perderam suas flores.  Estamos em Outubro, mês oficial da luta contra o câncer de mama.

O Outubro Rosa se consolidou mundialmente pelas ações desenvolvidas por instituições públicas e privadas, monumentos iluminados e relatos de sobreviventes da doença. 

Meses simbólicos como o Setembro Amarelo e o Outubro Rosa são um fôlego de união em nossa sociedade polarizada, bastante oportunos em mais um ano eleitoral.

O impacto emocional e engajamento se explica tanto por dados estatísticos, quanto por representações simbólica e sociais. 

 O câncer de mama representa mais de dez por cento do número total de neoplasias. É o mais prevalente entre mulheres e o Instituto Nacional do Câncer estima que mais de 66 mil novos casos serão diagnosticados por ano. 

Descrições egípcias milenares e Hipócrates na Grécia antiga já registravam esse tipo de tumor como um problema de saúde relevante. 

Breast Cancer in Egypt: When Myths and Patriarchy Stand in the Way

Esse ano um levantamento preocupante da ONG Instituto Oncoguia constatou que as medidas de contenção ao COVID 19 geraram atraso em procedimentos como quimio  e radioterapias, sendo que os pacientes do SUS foram muito mais afetados do que os do sistema particular. 

Câncer não é uma doença única. Assim como não faria sentido se referir genericamente a catapora e hepatite B como “viroses”, há algo de peculiar no câncer de mama que vai além de seus aspectos celulares e anatômicos.

Existe simbolismo cultural e social em torno dessa parte do corpo das mulheres. A pressão sob os seios se inicia na puberdade, como atestado de maturidade e de “se tornar mulher”.

Breast Cancer Awareness with Ribbon Logo (Graphic) by DEEMKA STUDIO ·  Creative Fabrica

Na idade adulta o seio feminino encontra papéis dicotômicos de afirmação de feminilidade, infelizmente atrelada a sexualidade e provocação, e de maternidade, que em algum momento se tornou exclusivo à mulheres santas e sem defeitos. 

Como se o corpo não tivesse dona e a mama fosse objeto de domínio público, são inventadas normas de etiqueta sobre o quanto é adequado que ela apareça em determinados ambientes,  enquanto criamos leis garantindo o aleitamento materno em locais públicos. 

A mensagem transmitida por essa postura coletiva é a certeza que decisões sobre cirurgias de mastectomia, reconstrução mamária e simetria perfeita serão alvo do escrutínio alheio e, indiretamente, representam sua imagem enquanto pessoa e mulher. 

Why One Woman Said 'No' to Reconstruction After a Double Mastectomy

Mulheres são estimuladas a se tocar como forma de prevenção. Proponho aos homens que também se toquem e aceitem que o corpo feminino não existe para seus conceitos e legislações.

Asimilar que corpos diferentes também podem ser femininos, saudáveis e “normais” é um passo importante da redução do estigma e diminuição da carga emocional que o diagnóstico carrega. 

Cicatrizes não precisam ser imperfeições, podem ser símbolo de superação, coragem, persistência e domínio sobre o próprio corpo. 

Desejo força e saúde a todas guerreiras que de peito e alma travam a batalha contra o câncer de mama.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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As pessoas mais fortes que conheci

Julgamentos de valores e concepções podem existir implícitos na fala cotidiana.

Sem perceber, acreditamos e reproduzimos morais antigas e idéias que talvez não façam mais sentido.

Dessa forma, reforçamos conceitos que alimentam preconceitos.

Diminuímos ou condenamos o outro e, às vezes, nós mesmos.  Como tudo que é arraigado, é difícil de perceber, só prestando muita atenção.

Em se tratando de saúde mental, particularmente na depressão, dois conceitos, com toda suas cargas semânticas parecem dialogar nas entrelinhas: o fraco e o forte. 

Weak and Strong Sustainability | LUMES Channel

Depressão remete a algo que deprimiu, que caiu, não conseguiu se sustentar com as próprias pernas.

É, portanto, entendido como fraco, incapaz e frágil.

Quando alguém se revolta por receber o diagnóstico, verdadeiramente está negando esses rótulos. 

Nomear e tratar o sofrimento o torna mais real, precisar de ajuda de algo externo, como medicação, atesta impotência.

Com isso, as poucas miligramas de um comprimido pesam uma tonelada, ao olhar todos os dias para a medicação a pessoa enxerga sua fragilidade, seu lado passional e inseguro. 

Swallowing pills isn't as hard as it seems - Cape Cod Healthcare

A abordagem profissional que vai além dos medicamentos, conduz, na maioria dos casos, a uma melhora significativa e duradoura do humor, mas o lembrete encapsulado e diário da fraqueza pode continuar lá.

Ninguém quer se ver como fraco, e na busca por ser forte, abandonam o tratamento.

O forte é altivo, imponente, vigoroso,  tem coragem e resolve seus problemas sem ajuda.

Para vencer é preciso ser forte.

Quem é forte consegue trabalhar e não reclama, não se queixa, pois segue firme, decidido.

Está feliz, aproveitando a vida que conquista com sua força. 

Esse imagético do forte é a contraposição de uma pessoa deprimida.

Frases como: “você precisa ser mais forte” e “isso é coisa de gente fraca” estão carregadas dessa visão.

Um entendimento arcaico e ultrapassado da depressão.

Quando trazemos o adoecimento para a esfera do tratamento moderno, a carga semântica do cuidado é oferecida.

Acolhimento e compreensão não enxergam conteúdos morais e valores de forte e fraco perdem o sentido. 

“Mas eu sempre fui tão forte”, se te ensinaram a vida inteira que depressão é sinal de fraqueza, esteja aberto a rever seus conceitos.

Ninguém deixa de ser forte porque está adoecido. 

Na verdade, as pessoas mais fortes que conheci sentaram em um consultório na condição de pacientes.

Sair da cama, ir ao médico, fazer terapia, viver e continuar buscando bem estar é nadar contra as ondas o mar, é matar um leão por dia, isso só se faz com muita força. 

Chorando você ainda é uma fortaleza.

O sofrimento não diminui sua grandeza.

Quem tentou suicídio terá cicatrizes, mas elas não podem ser marcas de covardia.

Perceba a força pela sua trajetória, pelo o que já passou, o que já sentiu.

Se empodere de saber que resistiu a tudo isso, às vezes desistiu de tentar, mas novamente, com muita firmeza, voltou.  

E finalmente, se orgulhe ter buscado e perdurado em um tratamento muitas vezes difícil, que não é para os fracos.

Versão em vídeo do Texto, para compartilhar com quem precisa ouvir!



Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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