Outubro Rosa, vamos nos tocar

Setembro se vai e os ipês amarelos já perderam suas flores.  Estamos em Outubro, mês oficial da luta contra o câncer de mama.

O Outubro Rosa se consolidou mundialmente pelas ações desenvolvidas por instituições públicas e privadas, monumentos iluminados e relatos de sobreviventes da doença. 

Meses simbólicos como o Setembro Amarelo e o Outubro Rosa são um fôlego de união em nossa sociedade polarizada, bastante oportunos em mais um ano eleitoral.

O impacto emocional e engajamento se explica tanto por dados estatísticos, quanto por representações simbólica e sociais. 

 O câncer de mama representa mais de dez por cento do número total de neoplasias. É o mais prevalente entre mulheres e o Instituto Nacional do Câncer estima que mais de 66 mil novos casos serão diagnosticados por ano. 

Descrições egípcias milenares e Hipócrates na Grécia antiga já registravam esse tipo de tumor como um problema de saúde relevante. 

Breast Cancer in Egypt: When Myths and Patriarchy Stand in the Way

Esse ano um levantamento preocupante da ONG Instituto Oncoguia constatou que as medidas de contenção ao COVID 19 geraram atraso em procedimentos como quimio  e radioterapias, sendo que os pacientes do SUS foram muito mais afetados do que os do sistema particular. 

Câncer não é uma doença única. Assim como não faria sentido se referir genericamente a catapora e hepatite B como “viroses”, há algo de peculiar no câncer de mama que vai além de seus aspectos celulares e anatômicos.

Existe simbolismo cultural e social em torno dessa parte do corpo das mulheres. A pressão sob os seios se inicia na puberdade, como atestado de maturidade e de “se tornar mulher”.

Breast Cancer Awareness with Ribbon Logo (Graphic) by DEEMKA STUDIO ·  Creative Fabrica

Na idade adulta o seio feminino encontra papéis dicotômicos de afirmação de feminilidade, infelizmente atrelada a sexualidade e provocação, e de maternidade, que em algum momento se tornou exclusivo à mulheres santas e sem defeitos. 

Como se o corpo não tivesse dona e a mama fosse objeto de domínio público, são inventadas normas de etiqueta sobre o quanto é adequado que ela apareça em determinados ambientes,  enquanto criamos leis garantindo o aleitamento materno em locais públicos. 

A mensagem transmitida por essa postura coletiva é a certeza que decisões sobre cirurgias de mastectomia, reconstrução mamária e simetria perfeita serão alvo do escrutínio alheio e, indiretamente, representam sua imagem enquanto pessoa e mulher. 

Why One Woman Said 'No' to Reconstruction After a Double Mastectomy

Mulheres são estimuladas a se tocar como forma de prevenção. Proponho aos homens que também se toquem e aceitem que o corpo feminino não existe para seus conceitos e legislações.

Asimilar que corpos diferentes também podem ser femininos, saudáveis e “normais” é um passo importante da redução do estigma e diminuição da carga emocional que o diagnóstico carrega. 

Cicatrizes não precisam ser imperfeições, podem ser símbolo de superação, coragem, persistência e domínio sobre o próprio corpo. 

Desejo força e saúde a todas guerreiras que de peito e alma travam a batalha contra o câncer de mama.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

https://www.ipec.med.br/

Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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