A neblina mental do novo coronavírus

Duas semanas de incubação, 10 dias de sintomas, recuperação e vida que segue. 

Essa é a história dos infectados pelo novo coronavírus que não precisam de internação, infelizmente, para alguns, a doença parece não ir embora.

Um número considerável de pacientes curados da infecção pelo COVID 19 tem mantido diversos sintomas por meses. O fenômeno tem chocado especialistas, que, pela ausência de informações, estão com dificuldade em conduzir os casos.

Curados de covid-19 podem enfrentar pelo menos 3 sequelas

Grupos propõe o conceito de “covid prolongado”, descrevendo a forma duradoura da doença ou suas sequelas que perduram por meses. 

Fadiga, falta de ar, fibrose pulmonar e alterações cardíacas já eram sequelas mais ou menos esperadas, elas podem ocorrer em outras infecções virais e após graves infecções pulmonares. 

Com a atual pandemia, o número sem precedentes de infectados eleva a situação a outro patamar. O SARS-Cov, também de ascendência chinesa, causador da epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave de 2002 infectou menos de 9 mil pessoas no mundo inteiro.

Se um por cento dos infectados atuais desenvolverem sintomas persistentes, podemos esperar milhares de brasileiros com sérias dificuldades de voltarem ao mercado de trabalho e à saúde plena.

Segundo estudo publicado pela Associação Médica Americana, a mais debilitante das sequelas é algo inesperado. Chamada de “brain fog” ou neblina mental, um déficit cognitivo marcante pode atingir os doentes semanas e meses após a doença.

What is brain fog and what causes it? - ABC News

“Parece que eu estou burra”, foi a descrição de uma paciente que atendi há alguns dias. Pensamentos lentificados, esquecimento de palavras simples, déficits de memória, além de fadiga e insônia pioram a qualidade de vida e nós simplesmente não sabemos como conduzir essas queixas. 

 Um levantamento francês com 120 pacientes 4 meses após alta hospitalar encontrou que um terço apresentava algum grau de amnésia e 28% tinham dificuldade de concentração. Mais da metade com cansaço diário. 

Anthony Fauci,  epidemiologista americano que ganhou destaque durante a pandemia, apontou que tais manifestações são sugestivas da Síndrome da Fadiga Crônica, uma condição médica ainda sem tratamento efetivo.

Médicos que ignoram esse fenômeno podem facilmente desmerecer as queixas e atribuí-las ao estresse e trauma natural do drama pandêmico. Exames com resultado negativo? Não precisa de tratamento. 

 Uma neblina mental diferente atinge até quem nunca teve a doença.  

Manter um placar de recuperados sabendo que o risco de reinfecção é real. Aferir a temperatura das mãos, quando nossa avó já sabia que febre se percebe na testa. Argumentos anti-vacina se replicando diariamente. 

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Somente uma grave dificuldade de raciocínio coletivo e informação explica. 

Tempo e educação, espero eu, que iluminem o caminho. As nuvens se dissipando mostram uma segunda onda no horizonte. Apenas os que estão sofrendo de amnésia tem desculpa de acusar alarmismo.

Nós podemos mudar de comportamento, o vírus não.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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