A inesperada saúde mental dos idosos

Essa semana completamos nove meses desde a declaração oficial da pandemia de COVID-19 pela Organização Mundial de Saúde.

Com a tendência atual de novo aumento dos casos, a situação de isolamento social está longe de ser superada.

Respect older people's rights when exiting the COVID-19 pandemic | European  Union Agency for Fundamental Rights

Desde o começo, a medida mais urgente foi evitar o contato próximo com nossos pais, mães e avós.

Por amor e cuidado, apoiamos o distanciamento e uma pergunta surgiu: como ficará a saúde mental de idosos em isolamento?

Múltiplos levantamentos têm surgido e surpreendem, idosos parecem estar lidando muito melhor do que outras faixas etárias com a situação. Fisicamente mais vulneráveis, mentalmente mais resilientes. 

Um levantamento do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano com mais de 5400 indivíduos, indicou que idosos apresentaram índices significativamente menores de ansiedade, depressão e uso de substâncias iniciados na pandemia.

Essa tendência foi acompanhada por estudos de países diversos, como China, Espanha e Canadá. 

Encouraging older adults to stay active and safe during the coronavirus  pandemic | NCOA

Falta de contato social, risco de infecção grave, dificuldade em usar dispositivos eletrônicos, com tantas fontes de estresse, os achados são no mínimo contra intuitivos. 

É que ninguém contava com um fator de proteção: a sabedoria desenvolvida com a idade.

Não me refiro à quantidade de conhecimento sobre determinado assunto, mas à capacidade de empatia e compaixão, equilíbrio emocional, habilidade de auto reflexão e aceitação de incertezas. 

Deixar as barbas de molho, se resignar frente ao que não pode ser mudado e conviver bem com a própria companhia parecem fazer tão bem para a mente quanto máscaras fazem ao pulmão. 

Precisamente esses traços foram  avaliados e são o maior fator de proteção contra a solidão de um isolamento prolongado.

Idosos sem graves limitações de saúde os tem de sobra. 

Quanto às interações sociais, qualidade é mais importante que quantidade.

Cheerful senior woman making a video call | premium image by rawpixel.com /  McKinsey | Women talk, Make a video, Senior adults

Os que mantiveram videochamadas ou encontros físicos com medida de proteção com uma ou duas pessoas importantes, também se mantiveram protegidos.

Aquela ligação semanal ao seu ente querido realmente faz a diferença. 

A sensação de estar conectado, de pertencimento a algo maior é um conhecido protetor contra adoecimento mental.

Na pandemia, o próprio ato de se isolar adquire o patamar de atitude coletiva.

Quem fica em casa, está cuidando do outro, e isso é poderoso. 

Social isolation: The COVID-19 pandemic's hidden health risk for older  adults, and how to manage it

Enquanto esperamos as vacinas, podemos assimilar um pouco dessa sabedoria.

Aceitar o que não pode ser mudado e valorizar relações interpessoais, pois elas nos sustentam. 

Acima de tudo, não esquecer que estamos nessa juntos, nos isolando, se possível, e nos cuidando sempre.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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