Do nada ao todo, a mente existe no corpo

Falta de ar, dor no peito, angústia, desespero, mal estar insuportável. Ajuda. Pronto socorro. Triagem, pressão normal, respiração normal, sem febre. Exames, espera, todos normais. Não foi um infarto, não era um derrame, não tem pneumonia, ufa.

How Anxiety and Panic Attacks Differ

A senhora não tem nada, teve uma crise de nada causada por coisa alguma. Pode voltar para casa e até amanhã.

Crises de ansiedade, episódios depressivos e outros diagnósticos psiquiátricos ainda são enxergados como “nada”.

Um sintoma inventado, fruto de quem pensou errado, está fazendo corpo mole ou tem a “mente fraca”.

Na Grécia Antiga, Platão já estruturava modelos que separavam o corpo físico das funções cognitivas e comportamentais do ser humano, na modernidade, René Descartes reforçou o dualismo corpo e mente.

Essa visão ainda tem profundo impacto na forma que nos enxergamos e influencia o entendimento das doenças psiquiátricas.

A mente é entendida como entidade separada do corpo, a figura ativa, o piloto das maquinarias anatômicas.

Divertida Mente – Oficina de Valores

A mente passa a existir em um plano metafísico, intangível, relacionado mais a regras de caráter, índole, fé e força de vontade do que às leis químicas e alterações biológicas do físico.   

Se não pode ser enxergada, suas manifestações não são nada. 

O corpo, por outro lado, é entidade passiva, despida de vontade, portanto um adoecimento que envolva braços, pulmões ou intestinos, é reconhecido, respeitado e o doente tratado como tal.

Você não tem culpa do que acontece com seu corpo, mas é o responsável direto pelo funcionamento da sua mente.

How to Stop a Panic Attack Before Things Get Really Bad

Ocorre que tal visão, apesar de intuitiva à nós, ocidentais, não tem nenhuma sustentação na ciência contemporânea.

A mente é um dos produtos do nosso corpo.

Como tudo que é difícil de entender, parece mágica, e pode até ser, mas esse milagre diário ocorre a partir do nosso funcionamento cerebral e fisiológico.

O próprio uso do termo “doenças mentais” é bastante problemático.

Quadros infecciosos, ginecológicos, cardiológicos, e todos os outros estão protegidos no guarda chuva das “doenças físicas”, que você, sua mãe e seus filhos eventualmente podem ter.

Do lado oposto, exposto às intempéries da subjetividade, estão as doenças mentais, que você e sua família, pessoas corretas e virtuosas, certamente nunca sofrerão. 

A mudança do termo “doença mental”, para doença psiquiátrica, ou mesmo doença cerebral psiquiátrica parece ser um passo razoável na direção de integrar as alterações de humor e comportamento ao universo mais neutro da saúde como um todo. 

Uma visão mais biológica em hipótese alguma se contrapõe às correntes revolucionárias de humanização, abordagem multidisciplinar e inserção social que são altamente efetivas e transformadoras.

Quem estuda o corpo humano a fundo percebe que interações sociais, alimentação saudável e psicoterapia, por exemplo, alteram objetivamente nossa fisiologia no caminho do bem estar. 

Researchers reveal how to boost brain power

Com esse tom, entendo que ficamos mais próximos de mudanças efetivas. Trazemos a distante saúde mental mais próxima da saúde.

Que as doenças psiquiátricas sejam estudadas nas escolas como se estuda dengue e infecções sexualmente transmissíveis.

A negligência por serviços de emergência em atender uma crise suicida deve gerar a mesma responsabilização legal que negar atendimento a uma crise de asma. 

O diagnóstico médico de “você não tem nada” não pode ser normalizado pela ignorância na compreensão de um dos sistemas mais importantes do organismo.

De batimentos cardíacos ao ciclo menstrual, a regulação emocional influencia seu corpo inteiro. 

Menos dualismo, mais integração.

Healthy Lifestyle Tips That Can Lead to Happiness | Best Health Canada

Você é a sua mente, você é o seu corpo, você é o todo e ninguém sofre por nada.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

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O ministério da saúde não adverte

Feito para te viciar, é uma forma de ocupar as mãos, deixa pessoas tímidas mais confortáveis, um companheiro para os momentos de solidão que cabe no seu bolso, poderia estar descrevendo um maço de cigarros, mas esse é o seu aparelho celular. 

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Designers são velhos aliados da indústria do tabaco, desenham um produto que pareça elegante, sabores diferentes tornam fumaça mais palatável, versões mais finas e com o rótulo “light” parecem mais seguras.

A indústria quer fumantes e continuam pensando em como atrair novos usuários.

Da mesma forma, aplicativos de smartphones são milimetricamente desenhados para te viciar.

Do outro lado da tela existem centenas de programadores com um único objetivo: captar sua atenção.

Uma vibração ou alerta desperta a expectativa de recompensa, um trago que te prende em um fluxo de informações desnecessárias, enquanto capturam seus dados para retroalimentar o ciclo.

Disfarçados de ferramenta útil, aplicativos podem dominar seu tempo e te distanciar de fontes de prazer valorosas. Para quem está preso no ciclo de olhar a tela a cada minuto, se desconectar induz abstinência.

Você se torna, literalmente, um usuário. Com login e senha. 

Dopamine taking over our Imaan

O tabagismo também é estimulado pela ansiedade social, é um fator que dificulta inclusive os que querem abandonar o fumo.

Em festas ou reuniões, fumantes se descrevem desajustados, sem saber o que fazer com as mãos se não tiverem um cigarro ao alcance.

Hoje, recorreremos facilmente às telas.

Não existe desajuste social em mexer no celular sozinho, assuntos intensos e desconfortáveis são apaziguados em checagens repetidas às notificações.

Se todos conversam em uma mesa, você não precisa interagir, abra seu feed que está tudo bem. 

5 Ways to Break Your Addiction to Your Mobile Phone | The Ranch TN

Como uma profecia autocumprida, o desconforto com interações induzem um hábito que mina ainda mais o estabelecimento de vínculo, intimidade e traquejo social. 

Solidão também estimula ambos os vícios, morar sozinho é um fator de risco para diversas dependências. O cigarro é descrito como um companheiro. Um celular conquista com a falsa sensação de conexões reais. 

Crianças que competem demais com as telas dos pais acabam ganhando uma para ficarem no silencioso.

5 Simple Tips to Stop Mobile Phone Addiction in Children

Nós levamos celulares para a cama e, como consequência, nunca dormimos tão mal.

Assistir um filme completo sem acessar redes sociais parece um sacrifício.

Eles estão na mesa de jantar, entre uma garfada e outra, só aquela conferida, por que não?

Os mais modernos estudos em dependências apontam que o que determina a gravidade e os prejuízos do quadro não é a droga em si, mas a relação estabelecida com ela.

Alguém que tenha outras fontes de prazer, consegue, com mais facilidade, se afastar do hábito ou substância.

O problema é que pessoas, livros e boas músicas não tem feeds, desenhados especificamente para te agradar, te curtir, nem recebem atualizações semanais para se tornarem mais viciantes. 

Celulares, por sorte, não causam câncer, mas podem te distanciar do que realmente importa para você. Isso o ministério da saúde não adverte. 

Não se deixar levar pelo fluxo viciante e uso compulsivo de celulares é um esforço ativo, exige que você nade contra a maré. 

Criar cômodos sem celulares na casa, horários para se desconectar e silenciar todas as notificações possíveis é um ótimo caminho para começar.

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E se você está lendo esse texto em sua tela de bolso, sem neuras, mas modere o uso, se afaste do próximo trago.

Pare, olhe ao redor, converse com quem estiver por perto.

Faz um dia lindo lá fora

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Janeiro Branco, saúde mental é sobre autocuidado

Possibilidades. Recomeço. Deixar o que deve ficar para trás. Janeiro é uma referência ao deus grego Jano, que representa transições e mudanças.

O ano tem sido colorido para destacar campanhas relevantes na área da saúde, e aproveitando a simbologia do mês, criou-se o Janeiro Branco, mês de conscientização sobre a saúde mental.

Uma folha em branco é um universo de possibilidades, se desenha um sol amarelo ou, com algumas retas, um castelo. A metáfora é sobre construir, edificar um estilo de vida que tenha a saúde mental no seu alicerce.

A campanha do Janeiro Branco é recente, surgiu em 2014, capitaneada por profissionais da psicologia, e é um movimento nacional que tem ganhado espaço a cada ano. 

Ao contrário do Setembro Amarelo, cujo foco é o suicidio, o fim trágico de um adoecimento mental, aqui falamos sobre atitudes positivas, que assimiladas à rotina, levam ao bem estar e te protegem de adversidades.

Estou falando do cultivo de hábitos e relações que te engrandeçam, aliviam o estresse do mundo externo, te fazem sorrir e repensar aqueles que levam ao sofrimento.

O grande trunfo é que nossa mente é equipada de uma ótima bússola que aponta ao que faz bem.

Praticar exercício físico é indispensável a uma saúde duradoura, mas qual te trás mais saúde mental? Relações afetivas também são essenciais, mas essas que você tem cultivado, valem a pena? Afinal, o que você gosta de fazer? Ninguém, além de você consegue responder.

Você foi à academia porque disseram que era bom, comeu salada porque o médico mandou, trabalha porque precisa do salário, se casou porque teve filhos, cuida dos filhos porque eles não se cuidam sozinhos.

Cumprindo o burocraticamente papel de mãe, advogada, esposa, filha, irmã, dona de casa, em algum momento Maria deixa de ser Maria. Espremida pelo o que entende como obrigações, não resta nada que realmente queira fazer.

Como um castelo de cartas, uma vida sem tempo para si, sem lazer e sem relações empáticas, desmorona ao primeiro sopro. 

Como o tempo é essa coisa inelástica, será essencial fazer o que deve ser feito da forma que te faça bem.

O melhor exercício é o que você mais gosta de fazer, sem vergonha de pular corda ou dançar axé. Relações familiares e amorosas são importantes, mas relacionamentos abusivos intoxicam e vão te anular, existem outras pessoas por aí. Busque faculdades ou empregos que realmente te inspirem, um salário que existe às custas do seu bem estar cobrará uma rescisão amarga.

São atos de autocuidado, e todo cuidado conta, mas isso só acontece com autoconhecimento.

Às vezes a bússola aponta a direção, mas enxergar o caminho até lá é o mais difícil. Entender quem se é, é complexo, perceber como ser outra coisa, mais ainda. Por sorte, você não precisa fazer isso sozinho. 

Os profissionais da saúde mental te ajudam a se enxergar, se aceitar e mudar, se preciso for. 

Cuide de você, e se precisar, nós, psiquiatras e psicológos, estaremos aqui de Janeiro a Janeiro.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

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