Sobre nossa mente descontínua

Presa ou predador. Seguro ou perigoso. Bom ou Mau.  

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Evoluímos sem tempo para pensar, era preciso classificar, de forma automática, rápida, simples.

Decisões em um piscar de olhos.

Você está aqui porque seu ancestral não filosofou antes de correr de uma onça.

Se ao invés de fugir ele refletisse sobre os diversos fatores envolvidos no temperamento daquele felino específico e tentasse calcular o grau de fome que ela sentia naquela tarde, ele seria o lanche do dia. 

Um local só podia ser seguro ou perigoso, outro homem era aliado ou inimigo, o meio termo mais ajudava que atrapalhava.

Estamos programados para pensar em termos absolutos, relativizar custa demasiado tempo e energia.

Tudo é isso ou aquilo, preto ou branco, sim ou não, mas a realidade não funciona assim.

O biólogo evolucionista Richard Dawkins chamou esse fenômeno de mente descontínua.

É muito abstrato enxergar o cinza, o impreciso, as etapas sutis e gradativas que transformam um neanthertalis  em um sapiens. 

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Apesar de buscarmos, não existem linhas divisórias claras em diversos aspectos do universo.

Existem gradientes contínuos, entre um ponto e outro.

A natureza odeia uma fronteira precisa, nós amamos. 

Tentar encontrar linhas divisórias o tempo todo atrapalha o entendimento de fenômenos complexos, como genética, medicina, política ou economia.

Cheios de nuances, poréns, senãos e talvezes.

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Momentos de privação ou medo, como a pandemia atual, acionam esse raciocínio simplista, límbico e emotivo.

Esse remédio é bom para tratar COVID?

Usar máscara protege contra a infecção?

Essa vacina garante que não vou adoecer?

Posso ficar totalmente despreocupado para o próximo Carnaval?

Quem faz essas perguntas não está buscando a resposta mais precisa, pois ela necessariamente será imprecisa.

O que se busca é certeza, segurança, o amparo de uma resposta exata.

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Honestidade científica sempre mantém uma margem de erro, espaço para dúvida. Situações intermediárias que só podem ser estimadas.

Por isso as fake news não partem dos ponderados.

Os predadores estão cheios de certeza, o que a ciência séria tem dificuldade em fornecer.  Se não fugir, eles te devoram.

Ouvir lados opostos, considerar informações conflitantes, refletir e pesar riscos e benefícios é o pensamento humano democrático, refinado e evoluído.

A mente descontínua é tirana, grosseira e assustada.

Como médicos, somos alvos dessas inquisições, ter certeza sobre o novo remédio, a nova técnica, o novo diagnóstico.

O tempo de recuperação, o tempo de vida, o tempo de efeito. 

Algumas coisas são mais seguras que outras, aquelas têm riscos diferentes, nada é perfeito, nem absolutamente seguro. 

Aceite o impreciso.

É desconfortável, mas é o único caminho para sermos algo além de bichos assustados, presas fáceis.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

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Matéria Bem Estar sobre Estimulação Magnética Transcraniana

Matéria do Bem Estar sobre a Estimulação Magnética Transcraniana, tratamento contra a Depressão sem efeitos colaterais das quimicas medicamentosas.

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Estimulação Magnética Transcraniana – Depoimento

Matéria de grande interesse a todos que sofrem de Depressão sobre a Estimulação Magnética Transcraniana, com depoimentos de pacientes que já passaram pelo procedimento.

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A armadilha do perfeccionismo 


Quer que um projeto de vida nunca aconteça? tente faze-lo de forma perfeita.

Perfeccionismo é aquele defeito que até parece qualidade, ótimo para ser mencionado em entrevistas de emprego e a justificativa para tudo que nunca começou.

Uma armadilha ao seu potencial. 

Sempre que um paciente se incomoda sobre estar procrastinando planos de sua vida, ao contrário de uma esperada falta de iniciativa e energia, o que encontro é a busca pela perfeição.

Se não for para ficar perfeito, melhor nem fazer. E nunca será feito.

A brilhante escritora Brené Brown, cujos livros recomendo, interpreta o perfeccionismo como um escudo, uma tentativa de se proteger contra a vergonha e julgamento alheio e de si próprio.

No núcleo do perfeccionista não existe o esforço pela excelência, existe o medo de exposição.

No fim, o perfeccionismo é um movimento defensivo.

Acumuladores de responsabilidades no trabalho e estudantes ansiosos com as notas bimestrais.

Na busca pela meta inatingível, em que todos os desfechos sejam planejados e que fatores aleatórios estejam sob controle, só se encontra frustração, esgotamento e autopunição.

A Síndrome de Burnout, que recentemente foi promovida à categoria de diagnóstico médico, é basicamente a estafa, o esgotamento pelo trabalho. Assim como o consumo excessivo de açúcar leva ao diabetes, a busca exagerada por ser perfeito, leva ao Burnout. 

O guia do crescimento pessoal é a pergunta constante “Como posso melhorar?”.

Quando uma atividade é orientada à performance, avaliação e notas, muda-se o foco para “O que eles vão pensar?”.

A pessoa deixa de ter valor por si própria e passa a ter o valor determinado pelo o que realiza e quão bem o faz.

Esse é o perfeccionista que você conhece, que francamente, todos somos em algum grau.

Existe o outro perfeccionista, que infelizmente, você talvez nunca tenha ouvido falar. 

Ideias que nunca foram ditas em voz alta e livros que nunca foram escritos, quem se convenceu que a execução de qualquer projeto deve ser impecável, termina nunca seguindo suas inspirações.

As idéias mirabolantes, mas potencialmente transformadoras, nunca saem do papel.

O escudo do perfeccionismo mata a capacidade de ousar, de fazer diferente, e com isso todos perdemos.

Lamento especialmente pelos artistas que nunca conhecemos.

Experimentar uma avaliação negativa, e ela ressoa bem mais forte que as positivas, não é fruto de não ter sido falho, imperfeito ou insuficiente. É fruto de estar fazendo algo inovador, de se expor, de se permitir ouvir a opinião alheia. 

A ida do homem à Lua não inspira pela perfeição, é pela ousadia.

Os encontros que transformaram sua vida não foram planejados.

A maior oportunidade de negócio surgiu fora da linha reta.

As conversas mais significativas só acontecem quando se mostra falhas e vulnerabilidades.

Perfeccionismo é um raciocínio emocionalmente autodestrutivo, que nunca moveu o mundo e não é fonte de satisfação pessoal.

Recepcione a imperfeição alheia, critique menos quem falhou, elogie a inovação, por menor que seja.

Quando ver alguém caindo, sorria e compartilhe a história da sua queda. 

Melhor feito do que não feito.

Delegue aquilo que te sobrecarrega, menos foco na nota e mais importância ao seu crescimento pessoal.

Ouse ser diferente e inovar.

Sua imperfeição é inspiradora.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

A Intenção por trás do Ódio

Um grande mestre da psicanálise me contou: Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João.

Existem camadas e intenções nas entrelinhas dos jurados do tribunal da Internet.

Falas e ações públicas são um prisma, com superfícies lapidadas e arestas esmeradas, feitas para serem vistas, mas com luz e no ângulo certo, você enxerga o que está escondido e o branco se revela cheio de cores.

As opiniões cruas e francas não são expostas ao sol, às vezes elas estão fora de moda e opacas. 

O discurso de ódio, o ódio do bem, o ódio justiceiro, “apenas contra quem merece” é a camuflagem perfeita para quem quer se vender como desconstruído, moderno e livre de preconceitos.

É a sinalização de virtudes que não podem ser vangloriadas em voz alta. 

Soa soberbo e sem sal gritar, “Eu sou tolerante, respeito a todos!”, “Eu nunca ofendo ninguém!”, “Olhem pra mim, eu sou uma ótima pessoa!”.

Não cai bem, e de que adianta mencionar que você está só fazendo sua obrigação? 

Algumas pitadas de ódio justiceiro melhoram o sabor dessas afirmações.

Ao declarar o alvo de um cancelamento digital, você se posiciona do lado oposto ao “cidadão de mal” que, sabendo ou não, falou ou fez o que você julga errado.

Antagonismo simples, que nosso cérebro bípede assimila sem raciocinar. Censurando ao outro, eu me promovo.

Pessoas que nunca se comprometeram em determinadas pautas identitárias, como o combate à xenofobia ou racismo, se tornam engajadas do dia para noite.

Nunca aplicaram o que brandam na vida pessoal, nunca abriram um livro sobre o assunto e se tornaram referências.

Não tem diploma, mas tem o selo da lacração.

Monetizam em cima disso, ganham dinheiro pelas suas curtidas e constroem uma marca pessoal.

Empresas também surfam nessa onda, da fabricantes de cerveja ao seu banco, todos querem uma lasca do ódio do momento.

Notas de repúdio, selos de luta na foto de perfil, um trocadilho espinhoso.

De forma arquitetada, você passa a enxergar aquela marca com mais valores e princípios e se identifica.

Nunca promoveram a contratação dos grupos que você defende, jamais repensam a cultura corporativa que gera desigualdade e esgotamento em seus funcionários, mas estão ali, do seu lado contra o inimigo em comum.

Aplique esse mesmo olhar aos seus políticos mais adorados. Pois é. 

Isso era inevitável às relações digitais, que carecem da espontaneidade da vida offline, e é justamente isso que a cultura do cancelamento está matando.

Se é proibido errar, é perigoso ser autêntico.

Escolha as palavras, suprima opiniões, se você ainda não está alinhado, melhor ficar em silêncio. 

Respeito e apoio diversos movimentos importantes que nos fizeram avançar socialmente, sem eles não estaria aqui.

Que continuem, que brandem, mas exponham atitudes reprováveis de uma forma construtiva e estratégica.

Desconstruir tem menos efeito prático que ir lá e fazer o bem. 

A crítica eterna, a exclusão, a porrada verbal gera antipatia, afasta os que não conhecem o que você defende.

Quem só ataca, não defende nada. 

Antes da emoção subir à cabeça, se indignar, pense, qual a intenção de quem está compartilhando isso? Eu conheço ações efetivas dessa marca ou pessoa que promovam o que acredito?

A adrenalina da revolução pelo celular contagia, é viciante e eles sabem disso. 

Para fugir desse ciclo de forma prática, para cada comentário negativo que fizer, escreva dois elogiando boas ações, digitais ou não.

Promova duas vezes mais o seu pensamento do que o oposto.

A gratidão vai repercutir menos que a crítica, mas vale a pena. 

E se tiver dificuldade de encontrar o dobro de ações louváveis do que reprováveis, diminua as postagens de ódio ou faça você mesmo algo que valha a pena ser compartilhado. 


Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

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