“2ª onda traz de volta memórias traumáticas, tudo de uma vez”

Manoel Vicente explica as consequências do repique da pandemia no psicológico das pessoas

REPRODUÇÃO DE ENTREVISTA AO MIDIANEWS

https://www.midianews.com.br/cotidiano/2-onda-traz-de-volta-memorias-traumaticas-tudo-de-uma-vez/394796

Toque de recolher, “lockdown”, isolamento em casa, recorde de mortes. Termos que muitos acreditavam ter ficado em 2020 voltaram com força ainda maior em 2021.

Essa repetição fez com que muitas pessoas entrassem em um ciclo de ansiedade e angústia por terem que reviver as memórias da primeira onda da pandemia.

“O nosso corpo armazena as memórias traumáticas de um jeito diferente. Elas ficam profundas, mas voltam à tona e trazem toda a carga emocional, de medo, de angústia do evento inicial. É como se você estivesse revendo o mesmo filme várias e várias vezes.”, afirma.


O psiquiatra Manoel Vicente fala sobre gatilhos e enfrentar a realidade

Além de falar sobre os gatilhos da segunda onda, o profissional também fala sobre o medo da ruína financeira, que muitas vezes é maior do que adoecer.

Confira a entrevista na íntegra:

MidiaNews – O senhor escreveu recentemente um artigo sobre gatilhos gerados pela Covid-19. Como esses gatilhos são acionados? Como eles agem na mente?

Manoel Vicente de Barros – O que eu reparei com meus amigos e familiares foi que todos estavam entrando no mesmo turbilhão emocional da primeira onda do início da pandemia. Foi um momento muito difícil para todos, para mim e para qualquer pessoa, mesmo aquelas que tinham um grande equilíbrio emocional, todas ficaram afetadas.

E de repente eu tenho notado que a população tem ficado ansiosa, até sentindo sintomas físicos de ansiedade como batedeira no peito, frio na barriga, falta de ar, sentindo com toda a força tudo que significou o início da pandemia. Isso é o gatilho. É um evento, uma lembrança, uma frase ou qualquer estímulo externo que nos remete a um trauma anterior.

E eu percebi que falar de lockdown, de UTIs lotadas trazia e carregava as mesmas reações que aconteceram no começo. O nosso corpo armazena as memórias traumáticas de um jeito diferente. Elas ficam profundas, mas voltam à tona e trazem toda a carga emocional, de medo, de angústia do evento inicial. É como se você estivesse revendo o mesmo filme várias e várias vezes.

MidiaNews – De que forma a segunda onda pode afetar o psicológico da população?

Manoel Vicente de Barros – A segunda onda afeta de forma diferente da primeira porque ela traz essa sensação de que está tudo acontecendo do mesmo jeito. No ultimo ano, cada pessoa tem uma história de drama diferente, dentro de casa, com sua própria saúde de um adoecimento grave ou o próprio sofrimento de observar o número crescente de mortes, de adoecidos, de pessoas com sequelas. A segunda onda traz toda essas memórias traumáticas para o presente e você revive com muita intensidade, porque vem tudo de uma vez.

Na prática isso deixa as pessoas paralisadas, sem saber o que fazer e meio que dominadas por esse medo. Outras podem ir para um outro caminho e passar a entregar os pontos, falar que se é para ficar assim, melhor não seguir mais nenhuma medida de proteção necessária e que vai voltar à vida normal porque não está adiantando nada fazer lockdown.

De um lado as pessoas ficam dominadas pelo medo e do outro elas passam a negar o problema e entrar em um comportamento que só piora a situação. Ser dominado pelo medo e pela ansiedade é muito ruim, mas deixar de seguir as medidas de proteção porque você está cansado do problema, não vai resolver. Só vai nos jogar em uma espiral de números progressivamente maiores, de agravos, de mais sequelas e de mais adoecimento. Então, nenhuma das duas posições ajuda.

Victor Ostetti/MidiaNews

Dr Manoel Vicente de Barros

O profissional afirma que é importante olhar para as conquistas que já aconteceram, como a vacina

MidiaNews – Como fazer para que todas aquelas sensações ruins da primeira onda não voltem com força?

Manoel Vicente de Barros – A melhor forma é se ancorar nas mudanças positivas que tivemos nesses últimos dez meses, e elas não foram poucas. No início da pandemia ninguém sabia se iria existir uma vacina, tinha uma expectativa de 5, 10 anos até uma vacina estar disponível. Hoje o nosso problema é produção e distribuição. Mas mais de 7 milhões de pessoas – incluindo os profissionais de saúde que estarão nos hospitais trabalhando, muito mais saudáveis, muito mais seguros e, portanto, espalhando menos o vírus – já foram vacinadas. Os idosos mais frágeis também já estão tendo acesso à vacina, que é muito diferente de como a história começou.

Os médicos entenderam muito melhor como cuidar da doença. Então hoje a eficiência do tratamento é muito melhor do que no início da pandemia.

MidiaNews – O que o senhor tem percebido de sua vivência no consultório neste um ano de pandemia?

Manoel Vicente de Barros – O que eu e outros psiquiatras observamos é que várias pessoas que nunca precisaram da saúde mental vieram até o consultório. Pessoas que sempre lidaram com estresse do dia a dia fazendo exercício físico, encontrando amigos, vendo a família ou viajando, de repente foram privados de todos esses escapes pro estresse tradicional.

Além disso, a pandemia ainda colocou o medo a insegurança do futuro da própria vida, dos familiares e do futuro financeiro das pessoas. Isso acaba tornando qualquer um, por mais estável, equilibrado, por mais centrado que seja, suscetível a um transtorno de ansiedade, a um transtorno depressivo ou a uma alteração simples do sono.

E esse primeiro contato das pessoas com a saúde mental, entendo que até diminuiu o preconceito, as barreiras que antes existiam e elas passaram a perceber, de forma geral, que qualquer um, se for colocado em determinada situação, pode se sentir mal, desenvolver um transtorno de ansiedade e pode precisar de ajuda.

MidiaNews – A crise financeira também afeta o emocional. O que tem sido mais complicado, o medo de adoecer ou o de empobrecer?

As sociedades que passaram por esses traumas conseguem se reerguer com muito mais união e força. Um drama que é vivido coletivamente acaba aproximando pessoas que nunca se aproximariam em outras situações.

Manoel Vicente de Barros – Talvez o medo da ruína financeira seja mais generalizado do que o medo de adoecer. Eu observo que muitas pessoas não têm medo de adoecer, elas sabem que a taxa de mortalidade é baixa e entendem que a maioria de nós vamos ter contato com o vírus e após algum tempo vamos ficar bem.

A crise financeira, no entanto, atinge todo mundo até quem está trabalhando e tem uma renda garantida. Mas a preocupação financeira tem sido diferente, porque ela desperta a raiva. Os comerciantes atingidos pelas medidas restritivas ficam com raiva de serem proibidos de trabalhar, os funcionários ficam com raiva de não poderem ter o salário garantido no final do mês e as pessoas que querem que a doença vá embora logo, ficam com raiva de que medidas mais drásticas não foram tomadas mais cedo e por mais tempo. É raiva dos dois lados.

MidiaNews – Qual a melhor forma de lidar com a perda de familiares e pessoas próximas?

Manoel Vicente de Barros  Existe a perda dos que faleceram, sem dúvida a mais dolorosa, e também existe a perda do contato, de ver, do toque do abraço. As duas são muitos sentidas. Netos estão sem ver os seus avós há muitos meses e isso também é um tipo de perda familiar.

Não existe forma certa de lidar com o luto, porque ele é único para cada pessoa e em cada momento de vida. Sem dúvida vai marcar. Aqueles que foram nunca serão esquecidos, é uma ferida que sempre sangra, a pessoa sofre agora e depois de alguns anos, quando se lembrar, ainda vai ser doloroso. O luto é o outro lado do amor, só faz falta quem te marcou, e quem te fazia bem, por isso dói tanto.

Cada pessoa precisa ter o seu mecanismo, a sua jornada de como encarar isso. Você pode se apoiar nos seus familiares, nos amigos, na religião. Um profissional de saúde mental só é necessário quando o luto interrompe a vida de alguém e essa pessoa não consegue mais se reerguer e retomar a sua vida. Nesse momento a saúde mental pode ajudar, mas o luto faz parte da vida humana.

MidiaNews – É possível que a pandemia deixe trauma psicológico na população? Se sim, quais?

Manoel Vicente de Barros – Com certeza haverá traumas. Como em qualquer situação de catástrofe, como um acidente ambiental, uma guerra ou uma pandemia, sempre ficarão marcas, mas vamos precisar superar.

Mas as sociedades que passaram por esses traumas conseguem se reerguer com muito mais união e força. Um drama que é vivido coletivamente acaba aproximando pessoas que nunca se aproximariam em outras situações. E isso acaba trazendo perspectivas novas dos valores da vida, o que é importante, o que tem que ser vivido agora e o que não pode ficar para depois.

Então, apesar do trauma como algo negativo, ele também deve nos fazer repensar a forma como vivemos, a velocidade em que as coisas estão, a sustentabilidade do nosso estilo de vida. Depois dessa pandemia, o mundo está mais preparado para lidar com novas adversidades.

MidiaNews – Qual a melhor forma de encarar e viver a realidade que temos agora?

Manoel Vicente de Barros – A melhor forma é fazer a sua parte para o dia de hoje. É você fazer o seu isolamento, as suas medidas de higiene pensando no agora. É impossível prever onde estaremos no mês que vem, como estarão as condições da doença e financeira. Então não faz sentido você sofrer agora o que vai acontecer no mês que vem.

Existe a oração da serenidade, que é muito usada em grupos de saúde mental, em que se busca a serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, a coragem para mudar o que for possível e a sabedoria para discernir entre as duas coisas.

Você só tem controle pelo que você faz, então siga as medidas de segurança, fique em casa se puder e se cuide, porque isso é o máximo que somos capazes de fazer.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.ipec.med.br/

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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