Mais atendimentos, mais tratamentos

A venda de ansiolíticos e antidepressivos tem aumentado nos últimos anos e, na pandemia, disparou.

Antes da crítica precipitada contra um uso supostamente desnecessário, precisamos perceber que isso é consequência direta do acesso crescente a tratamentos e profissionais de saúde mental.

Going Off Antidepressants - Harvard Health Publishing - Harvard Health

Segundo o Conselho Federal de Farmácia, em 2020 os brasileiros compraram 17% mais medicações para humor e ansiedade que no ano anterior.

Esse dado não fica deslocado da tendência observada em outros anos. Estamos sempre consumindo mais.

Quando essa estatística vêm à tona, é comum a conclusão que nossa sociedade está medicalizando o sofrimento e estresse intrínsecos à vida.

Como se não estivéssemos encarando nossos problemas “por conta própria” e procurando nos anestesiar.

Isso não faz sentido algum.

Buscar por atendimento e usar medicações é justamente uma forma de reconhecimento e enfrentamento de um problema.

Não é um ato passivo, uma fuga. Quem consulta um profissional está buscando a resolução de suas aflições e investindo em uma vida melhor. 

A Associação Brasileira de Psiquiatria reporta aumento superior a 80% nos atendimentos em consultórios de psiquiatras no país.

A demanda por terapia, feita pela psicologia, aumentou sobretudo virtualmente, com os teleatendimentos que vieram para ficar. 

Why People Avoid Mental Health Treatment - CBA - Blog

Quem é atendido, recebe tratamento, então o aumento estatístico do uso de fármacos é uma consequência esperada dessas consultas.

Motivo para comemorar, não para se alarmar.

Por outro lado, é necessário ponderar se estamos, no médio e longo prazo, estruturando serviços de saúde mental que realmente transformam vidas e não meramente apagam incêndios emocionais com pílulas mágicas. 

Existe a ideia que o psiquiatra “só passa remédio e pronto”, mas segundo diversos levantamentos, os clínicos gerais são os maiores prescritores de benzodiazepínicos, os tarja preta que tem potencial de dependência.

A falta de acesso ao especialista, portanto, induz ao uso de medicações menos sofisticadas e seguras.

A escassez de bons tratamentos não farmacológicos e serviços de psicologia acessíveis é outro fator que pressiona o uso de medicações.

O médico nem sempre pode indicar o melhor tratamento, ele faz o que é possível. Se a terapia não está disponível, a cronificação do medicamento se torna a regra. 

O Brasil é o país com o maior número absoluto de psicólogos do mundo, são mais de 390 mil, segundo o Conselho Brasileiro de Psicologia. Os Estados Unidos têm apenas 170 mil, a título de comparação.

Com esses números e as novas tecnologias de atendimento virtual, temos tudo para uma grande expansão de serviços de terapia.

Uma cruzada ideológica pela não utilização de medicações ou criticar quem as usa induz ao subtratamento e subdiagnóstico, tendo pouco a oferecer de forma prática.

É fruto de desconhecimento ou de nunca ter sentido na pele o sofrimento mental.

Não devemos ter medo de utilizar o que a medicina tem a oferecer, desde que seja preservada a visão integrada, multidisciplinar e de longo prazo.

Sair das sombras do adoecimento é possível à luz do atendimento humanizado. Que o número de pessoas atendidas e acolhidas sempre cresça, durante a após a pandemia.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

https://www.instagram.com/dr.manoelvicente/

https://www.ipec.med.br/

Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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