Sobre o Dia do Trabalhador

Esse ano tivemos um dia do trabalhador diferente, o feriado caiu no final de semana e ninguém lamentou por isso.

Manter as portas abertas, continuar empregado ou assinando a carteira de seus funcionários é uma conquista após esse ano pandêmico. 

Em teoria trabalhamos para viver. O trabalho é o meio, trocar seu tempo e esforço, para por fim, receber a remuneração que custeie uma vida mais confortável.

Se piscarmos, meio e fim se invertem, e o trabalhar para viver, se torna viver para trabalhar. 

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Quando se vive para trabalhar, o emprego passa a ser aquilo que te define, suas peculiaridades, habilidades e personalidade são achatadas no rótulo do seu ofício.

Se apresente, nome e profissão.

O desempregado tem dificuldade de se reconhecer socialmente, não tem lugar, não tem papel. A crise financeira se torna crise existencial.

Para além do campo simbólico, a relação com o trabalho é um enorme determinante de saúde.

A medicina do trabalho é um ramo onde se observam os mecanismos de adoecimento relacionados à atividade laboral e promove medidas de prevenção e promoção à saúde do trabalhador.

Acidentes traumáticos e lesões osteoarticulares relacionadas a trabalho repetitivo por muito tempo lideraram as causas de licenças trabalhistas em todo o mundo, mas a saúde mental parece estar tomando a dianteira e a OMS prevê que a depressão será a maior causa de invalidez a partir desse ano.

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Na vida de consultório observo o quanto esse afastamento é particularmente doloroso.

Baixa auto estima, sensação de culpa e desesperança são sintomas de depressão, a pessoa já está dominada por esses sentimentos e ainda precisa carregar o peso de um atestado médico, que é a declaração, no papel, de sua invalidez.

O concursado, via de regra, não se esforçou pelo emprego dos sonhos, ele se dedicou pela estabilidade, pela segurança.

Quando a depressão o atinge, ele é o que mais resiste ao afastamento e sofre duas vezes, pela doença e por se negar a utilizar de sua estabilidade para recuperar a saúde.

Percebi também uma lição cruel nesse processo.

O afastado por saúde mental é facilmente discriminado como preguiçoso ou que faz “corpo mole”, colegas de profissão e os departamentos de recursos humanos são particularmente insensíveis.

Eles esquecem que também são gente, e quem está vivo pode adoecer.

Esses escarnecedores, que julgavam e ofendiam, são os que mais sofrem quando se veem diante do seu adoecimento.

Resistem ao diagnóstico, ao tratamento, ao afastamento e, no final, terminam ficando doentes por mais tempo. O que se fala contra os outros, volta em dobro para você.

O ambiente de trabalho saudável age de forma exatamente oposta.

O emprego pode proteger contra adoecimento mental, promover socialização, crescimento individual e coletivo. 

As taxas de afastamento por depressão não são uniformes, atingem com maior impacto setores da educação, saúde e segurança pública.

Isso aponta que o problema não é o trabalhador, as pessoas, mas os ambientes e sistemas sob os quais elas trabalham.  

Reformas estruturais, acabar com a visão da exaustão como virtude e burocracias estigmatizantes dos setores de recursos humanos e previdenciários são um caminho difícil, mas necessário. 

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Questione como a burocracia do seu local de trabalho trata os que estão adoecidos.

Perceba se seu emprego é fonte de frustração ou realização.

Você pode estar adoecendo para ganhar um pão amargo. 

E, antes de tudo, nutra um olhar mais empático pelos que precisaram dar um tempo de tudo isso.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Publicado por

Manoel Vicente de Barros

Médico Psiquiatra em Cuiabá - Mato Grosso / Medicina pela Universidade Federal de Mato Groso (UFMT) / Aperfeiçoamento em Psicogeriatria pela USP / Observership em Estimulação Magnética Transcraniana (EMTr) na Toronto University no Canadá / Instagram: @dr.manoelvicente / Facebook: dr.manoelvicente

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