Homem não chora

Não chorar, não sofrer, não reclamar. Não se abracem, não se beijem, demonstrar afeto é impensável. Seja provedor. O trabalho te edifica. Engula o choro. 

TMW Unlimited's 'Men In Progress' Lynx campaign sees men talk about real  meaning of masculinity - adobo Magazine Online

Se precisar de ajuda é atestado de fracasso, procurar ajuda é impensável. Regras rígidas e pensamento inflexível.

 Com ares de tragédia edipiana, essas normas são ensinadas de pai para filho. Um roteiro triste e solitário com os papéis atribuídos na infância, mas fazem parte da socialização e desenvolvimento masculino até hoje. 

O aumento no número de suicídios, nossa epidemia silenciosa, é liderado majoritariamente por homens. Segundo o Ministério da Saúde, eles têm quatro vezes mais chances de tirarem a própria vida do que as mulheres. 

Are we socializing men to die by suicide?

É um fato que se esconde em plena vista. Temos os números há décadas, mas não falamos a respeito, não existem ações coordenadas direcionadas e não estamos tocando na ferida: porque os homens estão se matando tanto? 

Oficialmente, a depressão acomete duas vezes mais as mulheres. Assim temos um paradoxo estatístico, já que o suicidio acontece basicamente em pessoas deprimidas. Na saúde mental, onde tudo é mais espinhoso, a interface entre o biológico e o social influencia as estatísticas. 

Iludidos por sua suposta invulnerabilidade, homens utilizam menos o sistema de saúde, esperam o agravamento de doenças em estágios iniciais para recorrer a um profissional e são avessos à prevenção e ao autocuidado. 

Marcar uma consulta, seguir orientações e lembrar nome de medicações parece algo distante para eles. Mulheres, por outro lado, buscam cuidados ginecológicos, se ficam grávidas são acompanhadas por enfermeiras e obstetras. Mães faltam ao trabalho para levar o filho ao médico, algo totalmente anormal para um pai. 

Com isso, muitos homens adultos precisam que suas esposas marquem os atendimentos e  que suas mães descrevam os sintomas. Eles nunca aprenderam a usar esses locais de cuidado. As mulheres escolhem os profissionais e tomam as decisões, assim eles não se responsabilizam pela própria saúde. 

The Difference Bewteen A Weak Man And A Strong Man — JaysonGaddis.com

O papel de gênero atribuído à masculinidade se relaciona com força, coragem, racionalidade e poder, essa fantasia é diametralmente oposta à imagem de senso comum que existe de uma pessoa deprimida. 

Mentem até para si próprios que tudo está bem ou enfrentam sofrimentos complexos de término de relacionamentos, de um luto ou uma tristeza sem explicação em uma noite com amigos. Conversas rasas regadas a álcool, que mais entorpecem do que engrandecem.  São mecanismos pobres de negação e distração do problema.

O alcoolismo e uso de substância são marcantes na depressão masculina.  A irritabilidade também. Explosões, impulsividade, xingamentos. Como regra em consultório sempre fico atento, um homem irritado pode ser um homem deprimido. 

Esses fenômenos distraem a todos, se trata o alcoolismo, mas não se fala da tristeza. O humor irritável incomoda, afasta a família, termina casamentos ao invés de suscitar tratamento. 

Com o distanciamento afetivo de uma família cansada, sem amigos que consigam falar sobre sentimentos e sem saber como ou onde buscar apoio profissional, temos essas alarmantes taxas de suicídios, pelo menos em parte, explicadas.

Assim como o Novembro Azul estimula a detecção precoce do câncer de próstata, quero estimular a detecção precoce de sofrimento mental no “sexo forte”.

Homem pode chorar, sofrer, deprimir, falar sobre sentimentos e, com tratamento, se libertar. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Precisamos enxergar a cultura do cancelamento

Hipermetropia é o defeito visual que desfoca a visão para perto. O horizonte e a imagem geral permanecem nítidos, mas detalhes demasiado pequenos se tornam indecifráveis. 

Ao enxergar processos sociais e culturais todos sofremos dessa dificuldade para enxergar de perto. Conforme nos distanciamos historicamente, ganhamos clareza. 

Eis que nos últimos anos parece emergir, ainda meio turvo, um novo fenômeno social: a cultura do cancelamento. 

Cancel Culture Is Not Real—At Least Not in the Way You Think | Time

O embrião foi a “call out culture”, que é a exposição pública de quem comete um ato censurável. “Call out” é o ato de tirar satisfação, chamar à fala para uma explicação. 

Era mecanismo de censura moral por movimentos identitários, mas também de pressão a uma inflexão e mudança de comportamento. Com as redes sociais em que número de seguidores é fonte de monetização, ignorar, ao menos teoricamente, gera prejuízos.

Os alvos prediletos são políticos, artistas e jornalistas. Em uma tentativa de gerar dano financeiro, ou para simplesmente não se incomodar por um posicionamento antagônico ao seu, excluímos tudo o que essa pessoa futuramente diga.

Cancel Culture Is Only Getting Worse

Boicote é um ato legítimo, com propósito e desejadamente temporário até que o alvo ceda ou se retrate. Deixar de consumir ou seguir alguém pode fazer parte do diálogo social.

O cancelamento em sua forma extrema, no entanto, retira totalmente a pessoa das redes sociais e de todo conteúdo que se consome. Aos poucos se estende a outras esferas da vida. 

Nunca mais ouvir músicas do cantor cancelado, não ler aquela revista, jamais escutar a opinião do político em quem você não votou na última eleição.

Como um ponto cego, deixamos de enxergar a existência do dissonante, o pensamento diferente se torna inexistente e o resultado é reduzir seu campo de visão. Sem qualquer busca por diálogo ou retratações.

O outro lado, por consequência, terá contato apenas com quem aplaude seu ponto de vista. Duas pessoas que não se enxergam vão viver na ilusão de ótica que a outra não existe. Se existe, não tem absolutamente nada em comum comigo. 

A Parent's Guide to Cancel Culture, Explained by a Teenager | Parents

Uma cegueira voluntária que, na contramão de uma chamada de atenção, é uma tentativa de punição, não uma proposta de reforma. 

Está implícito que outro ser humano é incorrigível, que mudar de opinião é incoerência e ai de quem rever seu pensamento daqui a alguns meses.

Podemos não enxergar agora as consequências sociais de não consumir  tudo o que vai contra seu alinhamento ideológico, certamente veremos com maior clareza em alguns anos, mas é difícil imaginar um desfecho positivo à criação de bolhas políticas e culturais.

Conforme envelhecemos o risco de desenvolver hipermetropia aumenta, precisamos de óculos ou ajuda de alguém mais novo para letras miúdas, em compensação, é possível enxergar o quadro maior, ver além, e até imaginar o que está por vir.

Uma sociedade que não dialoga e não consegue concordar com fatos básicos sobre a realidade porque as fontes discordantes não merecem ser ouvidas dificilmente acabará bem.

What bubble of Maltese society do you belong to? | Random thoughts

Não queremos ser estudados em alguns séculos como uma civilização de bolhas, que só ouvia quem reafirmava suas crenças e não percebeu que isso era uma ameaça à trama social e democracia tão duramente construída.

Portanto, mantenho lendo jornais cuja linha editorial não me agrada,  propostas dos políticos que jurei nunca votar e seguindo o cantor que já disse muita besteira.

Com a visão do todo é possível enxergar mudanças, em nós e nos outros. E você, quem vai descancelar hoje?

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Fuja das pílulas mágicas

Se não fizer bem, mal não fazer. E com essa certeza é iniciado o uso desnecessário de mais um suplemento vitamínico.

O apelo é poderoso e remete a conceitos arraigados desde a infância. Vitamina sempre foi algo bom e sua mãe pedia que você engolisse todas as colheradas de verduras vitaminadas. 

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O crescimento do mercado de vitaminas industrializadas é constante nos últimos anos e, sem dúvida, foi suplementado pela atual pandemia, que induziu uma corrida aos botes e consumo desenfreado de quaisquer esperança encapsulada que estivessem ao alcance. 

O efeito psicológico de ingerir uma dose diária de saúde é o que vende, sensação de um corpo saudável e dever cumprido: “hoje eu me cuidei”. 

As promessas do uso de vitaminas para melhoria de qualidade de vida e prevenção de doenças são diversas, vão de mais inteligência, retardar o envelhecimento, emagrecimento a prevenir doenças

Diversas pesquisas testaram essas afirmações e a conclusão parece ser uníssona:  A maioria dos suplementos não previnem doenças crônicas ou morte, seu uso não é justificado e eles devem ser evitados.

Spinach contains a steroid-like chemical and scientists want it banned

Suplementos são tratamento para quem tem deficiência de vitaminas.

A Força Tarefa de Serviços Preventivos americana conduziu uma enorme análise com mais de 400.000 pessoas, sem constatar qualquer benefício do consumo de multivitamínicos na prevenção de doenças cardiovasculares ou câncer.

Em outro estudo, quase 6 mil médicos foram observados e tiveram sua inteligência e memória avaliada por 12 anos, uma parte usou multivitamínicos, outros mantiveram sua alimentação normal, resultado: nenhuma diferença cognitiva entre os dois grupos. 

Em 2013 a Revista da Associação Médica Americana publicou um ensaio sobre os efeitos do uso de nutrientes antioxidantes e surpreendentemente descobriu aumento de mortalidade nos que consumiam Vitamina E, Vitamina A e betacaroteno sem necessidade. 

Algumas vitaminas são chamadas hidrossolúveis, elas se dissolvem em água e são excretadas na urina quando estão em excesso, como a Vitamina C. 

O consumo da “vitamina da imunidade” em grandes quantidades pode não te proteger de doenças, mas garante um xixi nobre, mais caro e nutrido. 

How does vitamin D help build healthy bones?

Comprimidos devem ser usados para quem tem um diagnóstico, uma deficiência, um problema que justifique se expor ao risco e ao custo de usa-los.

Ao que parece, o grande divisor de águas em prevenção de mortalidade e doenças é o acesso à comida, à lazer, exercícios físicos e aos recursos que permitem pagar por tudo isso. É uma pena pagar por pílulas mágicas que não te ajudam em nada. 

Suspeite de tudo que promete benefícios sem riscos. Bem estar não pode ser encapsulado, gaste seu dinheiro com o que te faz sorrir e o nutra sua saúde mental. 

O que não faz bem, pode sim te fazer mal.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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As pessoas mais fortes que conheci

Julgamentos de valores e concepções podem existir implícitos na fala cotidiana.

Sem perceber, acreditamos e reproduzimos morais antigas e idéias que talvez não façam mais sentido.

Dessa forma, reforçamos conceitos que alimentam preconceitos.

Diminuímos ou condenamos o outro e, às vezes, nós mesmos.  Como tudo que é arraigado, é difícil de perceber, só prestando muita atenção.

Em se tratando de saúde mental, particularmente na depressão, dois conceitos, com toda suas cargas semânticas parecem dialogar nas entrelinhas: o fraco e o forte. 

Weak and Strong Sustainability | LUMES Channel

Depressão remete a algo que deprimiu, que caiu, não conseguiu se sustentar com as próprias pernas.

É, portanto, entendido como fraco, incapaz e frágil.

Quando alguém se revolta por receber o diagnóstico, verdadeiramente está negando esses rótulos. 

Nomear e tratar o sofrimento o torna mais real, precisar de ajuda de algo externo, como medicação, atesta impotência.

Com isso, as poucas miligramas de um comprimido pesam uma tonelada, ao olhar todos os dias para a medicação a pessoa enxerga sua fragilidade, seu lado passional e inseguro. 

Swallowing pills isn't as hard as it seems - Cape Cod Healthcare

A abordagem profissional que vai além dos medicamentos, conduz, na maioria dos casos, a uma melhora significativa e duradoura do humor, mas o lembrete encapsulado e diário da fraqueza pode continuar lá.

Ninguém quer se ver como fraco, e na busca por ser forte, abandonam o tratamento.

O forte é altivo, imponente, vigoroso,  tem coragem e resolve seus problemas sem ajuda.

Para vencer é preciso ser forte.

Quem é forte consegue trabalhar e não reclama, não se queixa, pois segue firme, decidido.

Está feliz, aproveitando a vida que conquista com sua força. 

Esse imagético do forte é a contraposição de uma pessoa deprimida.

Frases como: “você precisa ser mais forte” e “isso é coisa de gente fraca” estão carregadas dessa visão.

Um entendimento arcaico e ultrapassado da depressão.

Quando trazemos o adoecimento para a esfera do tratamento moderno, a carga semântica do cuidado é oferecida.

Acolhimento e compreensão não enxergam conteúdos morais e valores de forte e fraco perdem o sentido. 

“Mas eu sempre fui tão forte”, se te ensinaram a vida inteira que depressão é sinal de fraqueza, esteja aberto a rever seus conceitos.

Ninguém deixa de ser forte porque está adoecido. 

Na verdade, as pessoas mais fortes que conheci sentaram em um consultório na condição de pacientes.

Sair da cama, ir ao médico, fazer terapia, viver e continuar buscando bem estar é nadar contra as ondas o mar, é matar um leão por dia, isso só se faz com muita força. 

Chorando você ainda é uma fortaleza.

O sofrimento não diminui sua grandeza.

Quem tentou suicídio terá cicatrizes, mas elas não podem ser marcas de covardia.

Perceba a força pela sua trajetória, pelo o que já passou, o que já sentiu.

Se empodere de saber que resistiu a tudo isso, às vezes desistiu de tentar, mas novamente, com muita firmeza, voltou.  

E finalmente, se orgulhe ter buscado e perdurado em um tratamento muitas vezes difícil, que não é para os fracos.

Versão em vídeo do Texto, para compartilhar com quem precisa ouvir!



Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Setembro Amarelo: Vamos falar sobre o que salva vidas


O Setembro Amarelo é a campanha de prevenção ao suicidio, mas ainda falamos pouco sobre o que realmente consegue evitar esse desfecho, o tratamento profissional. 

O conteúdo em redes sociais e veículos profissionais foca em empatia, entender o outro, estender a mão e outras variações.

Isso é ótimo, claro, precisamos desses valores e eles são o primeiro passo para agir, mas são só isso mesmo, o primeiro passo. 

A discussão sobre acesso a tratamento fica de fora e predominam dicas e conselhos de como ser feliz e cuidar da mente. 

Oras, quem consegue ficar bem por esforço próprio não está gravemente doente e não deve tentar suicidio em um futuro próximo. 

Suicídio não é um evento aleatório, inevitável, quase acidental, ele é resultado de doenças que não conseguimos tratar antes. Por isso é uma causa evitável de morte.

Como um prédio que acumula ferrugem por anos, acumular sofrimento, dor emocional e ter uma depressão não tratada corrói as estruturas internas de qualquer pessoa.

O suícídio é o colapso, o desmoronamento, o fim dramático, por isso chama a atenção. O processo que levou a ao ato começou muito antes.

Pessoas deprimidas melhoram com tratamento efetivo conduzido por um profissional especialista.

Um exemplos simples, a medicação psiquiátrica Carbonato de Lítio, ou somente Lítio, reduz de forma inequívoca o risco de suicidio em pacientes deprimidos. 

Estudos apontam até 5 vezes menos risco de suicidio em pessoas que usam essa medicação. 

Existem até mesmo correlação entre o nível de lítio na água de uma cidade e seus índices de suicidio. Quanto mais lítio, menos suicídios

O uso precisa ser feito com acompanhamento de psiquiatras experientes.

Como pode a discussão sobre o acesso a profissionais e a medicamentos como o Lítio ficar de fora da conscientização do Setembro Amarelo?

Quantos psiquiatras atuam na rede pública da sua cidade? Quantas semanas se espera para conseguir uma consulta?

Em Cuiabá e Várzea Grande diversos hospitais privados e públicos não possuem psiquiatras responsáveis pelos pacientes, cabe a família procurar um profissional. É cada um por si. 

Os planos de saúde do estado não tem convênio com hospitais para internação dos casos graves, não existe atendimento especializado 24 horas na rede pública (nossa vizinha Campo Grande tem quatro serviços do tipo). 

O hospital Adauto Botelho míngua sem vagas e estrutura. Na prática, não existe hospital estruturado para tratar uma pessoa com ideação suicida em nossa rede, pública ou particular. 

Como podemos ignorar esses fatos, usar um lacinho amarelo e sorrir? 

Não quero jogar um balde de água fria em quem está engajado na campanha, se envolva, o assunto é importante, mas como a campanha é de conscientização, vamos tomar consciência do que realmente causa impacto.

Quem está doente precisa sim de empatia, como qualquer pessoa, mas precisa, com muita pressa, é de ajuda efetiva, especializa e rápido.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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