Os gatilhos da segunda onda 

Situações traumáticas marcam.

Medo, batedeira no peito, falta de ar, frio na barriga. Doeu, mas passou.

Nosso cérebro armazena essas memórias nas camadas mais profundas e elas podem emergir à superfície trazendo todo o borbulhar de sensações e angústia do sofrimento original.

Uma palavra, um cheiro, uma notícia pode ser o gatilho para reviver aquele evento e todas as sensações associadas.

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Uma vez que o gatilho é disparado, é difícil interromper o que se segue, o processo ganha vida própria.

Esse mês estudos apontaram que o COVID 19 pode ter efeito direto sobre o cérebro dos infectados, mas muito além da invasão ao tecido nervoso, parece que ele penetrou fundo em nosso emocional e gerou memórias traumáticas. 

E os gatilhos estão aparecendo: poucos leitos, lockdown, nova onda, e o turbilhão emocional do primeiro susto também ameaça voltar. 

Quando pensamos no vírus, emerge o medo, a incerteza, o temor pelos entes queridos e a insegurança financeira.

Também pode emergir a raiva dos que não se isolaram ou da obrigação ao isolamento. Entrar nessa estressa ainda mais sua saúde mental.

Se focar ao máximo em informações realistas do presente te ajuda a interromper o fluxo emocional negativo.  É se beliscar para acordar. 

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Quem se fixa no presente não se entrega a memórias ou confabulações de um futuro catastrófico. Usa como referência apenas o que realmente está acontecendo.

Então vamos aos fatos, efetivamente existe uma pandemia. Um vírus não pode infectar menos pessoas, sempre serão mais, os números vão subir, querendo ou não. Podemos tentar diminuir a velocidade e só.

Países ricos europeus e nossos vizinhos latinos não foram capazes de prevenir uma triste segunda onda, então era certo que ela nos atingiria também. 

É importante ter em mente que estamos muito mais preparados.

Médicos tiveram tempo de aprender sobre o manejo da doença, a melhor hora de prescrever o remédio certo, o uso de oxigênio e prevenção de tromboses. 

Os estabelecimentos estão adaptados, com mais higiene, distanciamento, máscaras são realmente vistas em qualquer lugar. 

Sim, bares estão cheios, pessoas sem proteção ainda estão por aí, mas a maioria está fazendo o que é possível. No começo da pandemia a orientação era de máscaras apenas para os doentes, então certamente avançamos.

Um lockdown é questão de tempo, pois os números justificam, mas deve ser menos duradouro que o primeiro e não seremos privados de espaços abertos.

Empresas se modernizaram, a telemedicina avançou, consumidores estão mais à vontade na Internet e nos aplicativos.

É indiscutível que estamos mais próximos da imunidade coletiva do que 10 meses atrás.

Vários foram contaminados e já tem anticorpos que conferem proteção, não absoluta, mas significativa. Profissionais de saúde e idosos mais frágeis estão sendo imunizados.

Nossos eus da primeira onda invejariam essas vantagens, o você de hoje precisa ter clareza delas. Dominado por gatilhos, não existe clareza.

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Devemos seguir com serenidade para aceitar o que não se pode mudar, coragem para enfrentar essa segunda onda e não perder de vista o que já conquistamos.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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O Melhor Remédio para Emagrecer

Dieta milagrosa é coisa do passado, a febre do emagrecimento rápido e a qualquer custo são os apelidados “remédios para emagrecer”, se as pessoas tivessem ideia em que estão se metendo, pensariam duas vezes.

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Poucos imaginam como uma  substância é classificada dentro de uma classe farmacológica.

Antes das medicações, já existiam os remédios.

Ao observar que quem bebia determinado chá tinha alívio para cólicas menstruais, se concluía que aquela erva deveria ser um bom remédio para essa aflição mensal. Assim se tinha um remédio.

Com os medicamentos, que são padronizados e regulados por agências rígidas, essa experimentação e observação continuou acontecendo.

A Psiquiatria foi revolucionada, quando perceberam que a Clorpromazina, inicialmente estudada como anestésico, reduzia sintomas psicóticos em pacientes esquizofrênicos. Pronto, assim nasceu o primeiro antipsicótico.

Da mesma forma, um antidepressivo, um hormônio de tireóide ou uma anfetamina, que eventualmente fazem algumas pessoas perderem peso passam a ser propagandeados como “para emagrecer”.

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Eles nunca foram desenvolvidos para isso.

Substâncias também não são mini robôs teleguiados para resolver exatamente o que você deseja. Se você tem uma dor no dedão, o analgésico não percorre o caminho da boca ao pé, ele vai se espalhar pelo corpo inteiro e, por onde passa, pode levar a efeitos colaterais imprevisíveis.

A Locarserina é um exemplo real que ainda pode ser encontrado por aí. Parecia perfeita, apenas inibia a fome e nada mais. Inicialmente aprovada para tratar obesidade, teve sua venda interrompida por aumentar a incidência de câncer.

Um risco benefício inaceitável, mas que não impede quem ainda busca medicamentos sem prescrição médica.

Antidepressivos e estimulantes agem no seu órgão mais nobre, de longe o mais importante, o cérebro.

Eles não vão simplesmente diminuir a sua fome, vários neurônios, que não tem nada a ver com modulação de apetite serão atingidos. Piora do sono, irritabilidade, redução da libido e até compulsão alimentar podem acontecer.

Descartando os riscos ocultos, aqueles efeitos colaterais que desconhecemos, como aumentar risco de câncer ou infartos cardíacos, existem todos os efeitos colaterais que via de regra, não são informados por quem vende um dito emagrecedor.

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Além das prateleiras das farmácias, estão as lojas virtuais e de suplementos alimentares, uma terra de ninguém.

Sem regulação rígida ou necessidade de prescrição médica, quem compra se orienta pela propaganda e nem imagina o que está tomando ou o que isso causa.

A busca desesperada por resultados rápidos, a confiança em um rótulo enganador e a falta de orientação não só gera resultados pífios, de curto prazo, como expõe a riscos absolutamente desnecessários.

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Sacrificar sua saúde por estética é o ápice da inversão de valores. 

O melhor remédio para emagrecer continua na sabedoria antiga, que existia muito antes das propagandas, dos rótulos e dos doutores de emagrecimento: dieta balanceada e exercício físico, experimente, são milagrosos.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Sobre nossa mente descontínua

Presa ou predador. Seguro ou perigoso. Bom ou Mau.  

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Evoluímos sem tempo para pensar, era preciso classificar, de forma automática, rápida, simples.

Decisões em um piscar de olhos.

Você está aqui porque seu ancestral não filosofou antes de correr de uma onça.

Se ao invés de fugir ele refletisse sobre os diversos fatores envolvidos no temperamento daquele felino específico e tentasse calcular o grau de fome que ela sentia naquela tarde, ele seria o lanche do dia. 

Um local só podia ser seguro ou perigoso, outro homem era aliado ou inimigo, o meio termo mais ajudava que atrapalhava.

Estamos programados para pensar em termos absolutos, relativizar custa demasiado tempo e energia.

Tudo é isso ou aquilo, preto ou branco, sim ou não, mas a realidade não funciona assim.

O biólogo evolucionista Richard Dawkins chamou esse fenômeno de mente descontínua.

É muito abstrato enxergar o cinza, o impreciso, as etapas sutis e gradativas que transformam um neanthertalis  em um sapiens. 

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Apesar de buscarmos, não existem linhas divisórias claras em diversos aspectos do universo.

Existem gradientes contínuos, entre um ponto e outro.

A natureza odeia uma fronteira precisa, nós amamos. 

Tentar encontrar linhas divisórias o tempo todo atrapalha o entendimento de fenômenos complexos, como genética, medicina, política ou economia.

Cheios de nuances, poréns, senãos e talvezes.

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Momentos de privação ou medo, como a pandemia atual, acionam esse raciocínio simplista, límbico e emotivo.

Esse remédio é bom para tratar COVID?

Usar máscara protege contra a infecção?

Essa vacina garante que não vou adoecer?

Posso ficar totalmente despreocupado para o próximo Carnaval?

Quem faz essas perguntas não está buscando a resposta mais precisa, pois ela necessariamente será imprecisa.

O que se busca é certeza, segurança, o amparo de uma resposta exata.

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Honestidade científica sempre mantém uma margem de erro, espaço para dúvida. Situações intermediárias que só podem ser estimadas.

Por isso as fake news não partem dos ponderados.

Os predadores estão cheios de certeza, o que a ciência séria tem dificuldade em fornecer.  Se não fugir, eles te devoram.

Ouvir lados opostos, considerar informações conflitantes, refletir e pesar riscos e benefícios é o pensamento humano democrático, refinado e evoluído.

A mente descontínua é tirana, grosseira e assustada.

Como médicos, somos alvos dessas inquisições, ter certeza sobre o novo remédio, a nova técnica, o novo diagnóstico.

O tempo de recuperação, o tempo de vida, o tempo de efeito. 

Algumas coisas são mais seguras que outras, aquelas têm riscos diferentes, nada é perfeito, nem absolutamente seguro. 

Aceite o impreciso.

É desconfortável, mas é o único caminho para sermos algo além de bichos assustados, presas fáceis.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Matéria Bem Estar sobre Estimulação Magnética Transcraniana

Matéria do Bem Estar sobre a Estimulação Magnética Transcraniana, tratamento contra a Depressão sem efeitos colaterais das quimicas medicamentosas.

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Estimulação Magnética Transcraniana – Depoimento

Matéria de grande interesse a todos que sofrem de Depressão sobre a Estimulação Magnética Transcraniana, com depoimentos de pacientes que já passaram pelo procedimento.

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A armadilha do perfeccionismo 


Quer que um projeto de vida nunca aconteça? tente faze-lo de forma perfeita.

Perfeccionismo é aquele defeito que até parece qualidade, ótimo para ser mencionado em entrevistas de emprego e a justificativa para tudo que nunca começou.

Uma armadilha ao seu potencial. 

Sempre que um paciente se incomoda sobre estar procrastinando planos de sua vida, ao contrário de uma esperada falta de iniciativa e energia, o que encontro é a busca pela perfeição.

Se não for para ficar perfeito, melhor nem fazer. E nunca será feito.

A brilhante escritora Brené Brown, cujos livros recomendo, interpreta o perfeccionismo como um escudo, uma tentativa de se proteger contra a vergonha e julgamento alheio e de si próprio.

No núcleo do perfeccionista não existe o esforço pela excelência, existe o medo de exposição.

No fim, o perfeccionismo é um movimento defensivo.

Acumuladores de responsabilidades no trabalho e estudantes ansiosos com as notas bimestrais.

Na busca pela meta inatingível, em que todos os desfechos sejam planejados e que fatores aleatórios estejam sob controle, só se encontra frustração, esgotamento e autopunição.

A Síndrome de Burnout, que recentemente foi promovida à categoria de diagnóstico médico, é basicamente a estafa, o esgotamento pelo trabalho. Assim como o consumo excessivo de açúcar leva ao diabetes, a busca exagerada por ser perfeito, leva ao Burnout. 

O guia do crescimento pessoal é a pergunta constante “Como posso melhorar?”.

Quando uma atividade é orientada à performance, avaliação e notas, muda-se o foco para “O que eles vão pensar?”.

A pessoa deixa de ter valor por si própria e passa a ter o valor determinado pelo o que realiza e quão bem o faz.

Esse é o perfeccionista que você conhece, que francamente, todos somos em algum grau.

Existe o outro perfeccionista, que infelizmente, você talvez nunca tenha ouvido falar. 

Ideias que nunca foram ditas em voz alta e livros que nunca foram escritos, quem se convenceu que a execução de qualquer projeto deve ser impecável, termina nunca seguindo suas inspirações.

As idéias mirabolantes, mas potencialmente transformadoras, nunca saem do papel.

O escudo do perfeccionismo mata a capacidade de ousar, de fazer diferente, e com isso todos perdemos.

Lamento especialmente pelos artistas que nunca conhecemos.

Experimentar uma avaliação negativa, e ela ressoa bem mais forte que as positivas, não é fruto de não ter sido falho, imperfeito ou insuficiente. É fruto de estar fazendo algo inovador, de se expor, de se permitir ouvir a opinião alheia. 

A ida do homem à Lua não inspira pela perfeição, é pela ousadia.

Os encontros que transformaram sua vida não foram planejados.

A maior oportunidade de negócio surgiu fora da linha reta.

As conversas mais significativas só acontecem quando se mostra falhas e vulnerabilidades.

Perfeccionismo é um raciocínio emocionalmente autodestrutivo, que nunca moveu o mundo e não é fonte de satisfação pessoal.

Recepcione a imperfeição alheia, critique menos quem falhou, elogie a inovação, por menor que seja.

Quando ver alguém caindo, sorria e compartilhe a história da sua queda. 

Melhor feito do que não feito.

Delegue aquilo que te sobrecarrega, menos foco na nota e mais importância ao seu crescimento pessoal.

Ouse ser diferente e inovar.

Sua imperfeição é inspiradora.

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A Intenção por trás do Ódio

Um grande mestre da psicanálise me contou: Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João.

Existem camadas e intenções nas entrelinhas dos jurados do tribunal da Internet.

Falas e ações públicas são um prisma, com superfícies lapidadas e arestas esmeradas, feitas para serem vistas, mas com luz e no ângulo certo, você enxerga o que está escondido e o branco se revela cheio de cores.

As opiniões cruas e francas não são expostas ao sol, às vezes elas estão fora de moda e opacas. 

O discurso de ódio, o ódio do bem, o ódio justiceiro, “apenas contra quem merece” é a camuflagem perfeita para quem quer se vender como desconstruído, moderno e livre de preconceitos.

É a sinalização de virtudes que não podem ser vangloriadas em voz alta. 

Soa soberbo e sem sal gritar, “Eu sou tolerante, respeito a todos!”, “Eu nunca ofendo ninguém!”, “Olhem pra mim, eu sou uma ótima pessoa!”.

Não cai bem, e de que adianta mencionar que você está só fazendo sua obrigação? 

Algumas pitadas de ódio justiceiro melhoram o sabor dessas afirmações.

Ao declarar o alvo de um cancelamento digital, você se posiciona do lado oposto ao “cidadão de mal” que, sabendo ou não, falou ou fez o que você julga errado.

Antagonismo simples, que nosso cérebro bípede assimila sem raciocinar. Censurando ao outro, eu me promovo.

Pessoas que nunca se comprometeram em determinadas pautas identitárias, como o combate à xenofobia ou racismo, se tornam engajadas do dia para noite.

Nunca aplicaram o que brandam na vida pessoal, nunca abriram um livro sobre o assunto e se tornaram referências.

Não tem diploma, mas tem o selo da lacração.

Monetizam em cima disso, ganham dinheiro pelas suas curtidas e constroem uma marca pessoal.

Empresas também surfam nessa onda, da fabricantes de cerveja ao seu banco, todos querem uma lasca do ódio do momento.

Notas de repúdio, selos de luta na foto de perfil, um trocadilho espinhoso.

De forma arquitetada, você passa a enxergar aquela marca com mais valores e princípios e se identifica.

Nunca promoveram a contratação dos grupos que você defende, jamais repensam a cultura corporativa que gera desigualdade e esgotamento em seus funcionários, mas estão ali, do seu lado contra o inimigo em comum.

Aplique esse mesmo olhar aos seus políticos mais adorados. Pois é. 

Isso era inevitável às relações digitais, que carecem da espontaneidade da vida offline, e é justamente isso que a cultura do cancelamento está matando.

Se é proibido errar, é perigoso ser autêntico.

Escolha as palavras, suprima opiniões, se você ainda não está alinhado, melhor ficar em silêncio. 

Respeito e apoio diversos movimentos importantes que nos fizeram avançar socialmente, sem eles não estaria aqui.

Que continuem, que brandem, mas exponham atitudes reprováveis de uma forma construtiva e estratégica.

Desconstruir tem menos efeito prático que ir lá e fazer o bem. 

A crítica eterna, a exclusão, a porrada verbal gera antipatia, afasta os que não conhecem o que você defende.

Quem só ataca, não defende nada. 

Antes da emoção subir à cabeça, se indignar, pense, qual a intenção de quem está compartilhando isso? Eu conheço ações efetivas dessa marca ou pessoa que promovam o que acredito?

A adrenalina da revolução pelo celular contagia, é viciante e eles sabem disso. 

Para fugir desse ciclo de forma prática, para cada comentário negativo que fizer, escreva dois elogiando boas ações, digitais ou não.

Promova duas vezes mais o seu pensamento do que o oposto.

A gratidão vai repercutir menos que a crítica, mas vale a pena. 

E se tiver dificuldade de encontrar o dobro de ações louváveis do que reprováveis, diminua as postagens de ódio ou faça você mesmo algo que valha a pena ser compartilhado. 


Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Do nada ao todo, a mente existe no corpo

Falta de ar, dor no peito, angústia, desespero, mal estar insuportável. Ajuda. Pronto socorro. Triagem, pressão normal, respiração normal, sem febre. Exames, espera, todos normais. Não foi um infarto, não era um derrame, não tem pneumonia, ufa.

How Anxiety and Panic Attacks Differ

A senhora não tem nada, teve uma crise de nada causada por coisa alguma. Pode voltar para casa e até amanhã.

Crises de ansiedade, episódios depressivos e outros diagnósticos psiquiátricos ainda são enxergados como “nada”.

Um sintoma inventado, fruto de quem pensou errado, está fazendo corpo mole ou tem a “mente fraca”.

Na Grécia Antiga, Platão já estruturava modelos que separavam o corpo físico das funções cognitivas e comportamentais do ser humano, na modernidade, René Descartes reforçou o dualismo corpo e mente.

Essa visão ainda tem profundo impacto na forma que nos enxergamos e influencia o entendimento das doenças psiquiátricas.

A mente é entendida como entidade separada do corpo, a figura ativa, o piloto das maquinarias anatômicas.

Divertida Mente – Oficina de Valores

A mente passa a existir em um plano metafísico, intangível, relacionado mais a regras de caráter, índole, fé e força de vontade do que às leis químicas e alterações biológicas do físico.   

Se não pode ser enxergada, suas manifestações não são nada. 

O corpo, por outro lado, é entidade passiva, despida de vontade, portanto um adoecimento que envolva braços, pulmões ou intestinos, é reconhecido, respeitado e o doente tratado como tal.

Você não tem culpa do que acontece com seu corpo, mas é o responsável direto pelo funcionamento da sua mente.

How to Stop a Panic Attack Before Things Get Really Bad

Ocorre que tal visão, apesar de intuitiva à nós, ocidentais, não tem nenhuma sustentação na ciência contemporânea.

A mente é um dos produtos do nosso corpo.

Como tudo que é difícil de entender, parece mágica, e pode até ser, mas esse milagre diário ocorre a partir do nosso funcionamento cerebral e fisiológico.

O próprio uso do termo “doenças mentais” é bastante problemático.

Quadros infecciosos, ginecológicos, cardiológicos, e todos os outros estão protegidos no guarda chuva das “doenças físicas”, que você, sua mãe e seus filhos eventualmente podem ter.

Do lado oposto, exposto às intempéries da subjetividade, estão as doenças mentais, que você e sua família, pessoas corretas e virtuosas, certamente nunca sofrerão. 

A mudança do termo “doença mental”, para doença psiquiátrica, ou mesmo doença cerebral psiquiátrica parece ser um passo razoável na direção de integrar as alterações de humor e comportamento ao universo mais neutro da saúde como um todo. 

Uma visão mais biológica em hipótese alguma se contrapõe às correntes revolucionárias de humanização, abordagem multidisciplinar e inserção social que são altamente efetivas e transformadoras.

Quem estuda o corpo humano a fundo percebe que interações sociais, alimentação saudável e psicoterapia, por exemplo, alteram objetivamente nossa fisiologia no caminho do bem estar. 

Researchers reveal how to boost brain power

Com esse tom, entendo que ficamos mais próximos de mudanças efetivas. Trazemos a distante saúde mental mais próxima da saúde.

Que as doenças psiquiátricas sejam estudadas nas escolas como se estuda dengue e infecções sexualmente transmissíveis.

A negligência por serviços de emergência em atender uma crise suicida deve gerar a mesma responsabilização legal que negar atendimento a uma crise de asma. 

O diagnóstico médico de “você não tem nada” não pode ser normalizado pela ignorância na compreensão de um dos sistemas mais importantes do organismo.

De batimentos cardíacos ao ciclo menstrual, a regulação emocional influencia seu corpo inteiro. 

Menos dualismo, mais integração.

Healthy Lifestyle Tips That Can Lead to Happiness | Best Health Canada

Você é a sua mente, você é o seu corpo, você é o todo e ninguém sofre por nada.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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O ministério da saúde não adverte

Feito para te viciar, é uma forma de ocupar as mãos, deixa pessoas tímidas mais confortáveis, um companheiro para os momentos de solidão que cabe no seu bolso, poderia estar descrevendo um maço de cigarros, mas esse é o seu aparelho celular. 

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Designers são velhos aliados da indústria do tabaco, desenham um produto que pareça elegante, sabores diferentes tornam fumaça mais palatável, versões mais finas e com o rótulo “light” parecem mais seguras.

A indústria quer fumantes e continuam pensando em como atrair novos usuários.

Da mesma forma, aplicativos de smartphones são milimetricamente desenhados para te viciar.

Do outro lado da tela existem centenas de programadores com um único objetivo: captar sua atenção.

Uma vibração ou alerta desperta a expectativa de recompensa, um trago que te prende em um fluxo de informações desnecessárias, enquanto capturam seus dados para retroalimentar o ciclo.

Disfarçados de ferramenta útil, aplicativos podem dominar seu tempo e te distanciar de fontes de prazer valorosas. Para quem está preso no ciclo de olhar a tela a cada minuto, se desconectar induz abstinência.

Você se torna, literalmente, um usuário. Com login e senha. 

Dopamine taking over our Imaan

O tabagismo também é estimulado pela ansiedade social, é um fator que dificulta inclusive os que querem abandonar o fumo.

Em festas ou reuniões, fumantes se descrevem desajustados, sem saber o que fazer com as mãos se não tiverem um cigarro ao alcance.

Hoje, recorreremos facilmente às telas.

Não existe desajuste social em mexer no celular sozinho, assuntos intensos e desconfortáveis são apaziguados em checagens repetidas às notificações.

Se todos conversam em uma mesa, você não precisa interagir, abra seu feed que está tudo bem. 

5 Ways to Break Your Addiction to Your Mobile Phone | The Ranch TN

Como uma profecia autocumprida, o desconforto com interações induzem um hábito que mina ainda mais o estabelecimento de vínculo, intimidade e traquejo social. 

Solidão também estimula ambos os vícios, morar sozinho é um fator de risco para diversas dependências. O cigarro é descrito como um companheiro. Um celular conquista com a falsa sensação de conexões reais. 

Crianças que competem demais com as telas dos pais acabam ganhando uma para ficarem no silencioso.

5 Simple Tips to Stop Mobile Phone Addiction in Children

Nós levamos celulares para a cama e, como consequência, nunca dormimos tão mal.

Assistir um filme completo sem acessar redes sociais parece um sacrifício.

Eles estão na mesa de jantar, entre uma garfada e outra, só aquela conferida, por que não?

Os mais modernos estudos em dependências apontam que o que determina a gravidade e os prejuízos do quadro não é a droga em si, mas a relação estabelecida com ela.

Alguém que tenha outras fontes de prazer, consegue, com mais facilidade, se afastar do hábito ou substância.

O problema é que pessoas, livros e boas músicas não tem feeds, desenhados especificamente para te agradar, te curtir, nem recebem atualizações semanais para se tornarem mais viciantes. 

Celulares, por sorte, não causam câncer, mas podem te distanciar do que realmente importa para você. Isso o ministério da saúde não adverte. 

Não se deixar levar pelo fluxo viciante e uso compulsivo de celulares é um esforço ativo, exige que você nade contra a maré. 

Criar cômodos sem celulares na casa, horários para se desconectar e silenciar todas as notificações possíveis é um ótimo caminho para começar.

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E se você está lendo esse texto em sua tela de bolso, sem neuras, mas modere o uso, se afaste do próximo trago.

Pare, olhe ao redor, converse com quem estiver por perto.

Faz um dia lindo lá fora

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Janeiro Branco, saúde mental é sobre autocuidado

Possibilidades. Recomeço. Deixar o que deve ficar para trás. Janeiro é uma referência ao deus grego Jano, que representa transições e mudanças.

O ano tem sido colorido para destacar campanhas relevantes na área da saúde, e aproveitando a simbologia do mês, criou-se o Janeiro Branco, mês de conscientização sobre a saúde mental.

Uma folha em branco é um universo de possibilidades, se desenha um sol amarelo ou, com algumas retas, um castelo. A metáfora é sobre construir, edificar um estilo de vida que tenha a saúde mental no seu alicerce.

A campanha do Janeiro Branco é recente, surgiu em 2014, capitaneada por profissionais da psicologia, e é um movimento nacional que tem ganhado espaço a cada ano. 

Ao contrário do Setembro Amarelo, cujo foco é o suicidio, o fim trágico de um adoecimento mental, aqui falamos sobre atitudes positivas, que assimiladas à rotina, levam ao bem estar e te protegem de adversidades.

Estou falando do cultivo de hábitos e relações que te engrandeçam, aliviam o estresse do mundo externo, te fazem sorrir e repensar aqueles que levam ao sofrimento.

O grande trunfo é que nossa mente é equipada de uma ótima bússola que aponta ao que faz bem.

Praticar exercício físico é indispensável a uma saúde duradoura, mas qual te trás mais saúde mental? Relações afetivas também são essenciais, mas essas que você tem cultivado, valem a pena? Afinal, o que você gosta de fazer? Ninguém, além de você consegue responder.

Você foi à academia porque disseram que era bom, comeu salada porque o médico mandou, trabalha porque precisa do salário, se casou porque teve filhos, cuida dos filhos porque eles não se cuidam sozinhos.

Cumprindo o burocraticamente papel de mãe, advogada, esposa, filha, irmã, dona de casa, em algum momento Maria deixa de ser Maria. Espremida pelo o que entende como obrigações, não resta nada que realmente queira fazer.

Como um castelo de cartas, uma vida sem tempo para si, sem lazer e sem relações empáticas, desmorona ao primeiro sopro. 

Como o tempo é essa coisa inelástica, será essencial fazer o que deve ser feito da forma que te faça bem.

O melhor exercício é o que você mais gosta de fazer, sem vergonha de pular corda ou dançar axé. Relações familiares e amorosas são importantes, mas relacionamentos abusivos intoxicam e vão te anular, existem outras pessoas por aí. Busque faculdades ou empregos que realmente te inspirem, um salário que existe às custas do seu bem estar cobrará uma rescisão amarga.

São atos de autocuidado, e todo cuidado conta, mas isso só acontece com autoconhecimento.

Às vezes a bússola aponta a direção, mas enxergar o caminho até lá é o mais difícil. Entender quem se é, é complexo, perceber como ser outra coisa, mais ainda. Por sorte, você não precisa fazer isso sozinho. 

Os profissionais da saúde mental te ajudam a se enxergar, se aceitar e mudar, se preciso for. 

Cuide de você, e se precisar, nós, psiquiatras e psicológos, estaremos aqui de Janeiro a Janeiro.

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