Mais atendimentos, mais tratamentos

A venda de ansiolíticos e antidepressivos tem aumentado nos últimos anos e, na pandemia, disparou.

Antes da crítica precipitada contra um uso supostamente desnecessário, precisamos perceber que isso é consequência direta do acesso crescente a tratamentos e profissionais de saúde mental.

Going Off Antidepressants - Harvard Health Publishing - Harvard Health

Segundo o Conselho Federal de Farmácia, em 2020 os brasileiros compraram 17% mais medicações para humor e ansiedade que no ano anterior.

Esse dado não fica deslocado da tendência observada em outros anos. Estamos sempre consumindo mais.

Quando essa estatística vêm à tona, é comum a conclusão que nossa sociedade está medicalizando o sofrimento e estresse intrínsecos à vida.

Como se não estivéssemos encarando nossos problemas “por conta própria” e procurando nos anestesiar.

Isso não faz sentido algum.

Buscar por atendimento e usar medicações é justamente uma forma de reconhecimento e enfrentamento de um problema.

Não é um ato passivo, uma fuga. Quem consulta um profissional está buscando a resolução de suas aflições e investindo em uma vida melhor. 

A Associação Brasileira de Psiquiatria reporta aumento superior a 80% nos atendimentos em consultórios de psiquiatras no país.

A demanda por terapia, feita pela psicologia, aumentou sobretudo virtualmente, com os teleatendimentos que vieram para ficar. 

Why People Avoid Mental Health Treatment - CBA - Blog

Quem é atendido, recebe tratamento, então o aumento estatístico do uso de fármacos é uma consequência esperada dessas consultas.

Motivo para comemorar, não para se alarmar.

Por outro lado, é necessário ponderar se estamos, no médio e longo prazo, estruturando serviços de saúde mental que realmente transformam vidas e não meramente apagam incêndios emocionais com pílulas mágicas. 

Existe a ideia que o psiquiatra “só passa remédio e pronto”, mas segundo diversos levantamentos, os clínicos gerais são os maiores prescritores de benzodiazepínicos, os tarja preta que tem potencial de dependência.

A falta de acesso ao especialista, portanto, induz ao uso de medicações menos sofisticadas e seguras.

A escassez de bons tratamentos não farmacológicos e serviços de psicologia acessíveis é outro fator que pressiona o uso de medicações.

O médico nem sempre pode indicar o melhor tratamento, ele faz o que é possível. Se a terapia não está disponível, a cronificação do medicamento se torna a regra. 

O Brasil é o país com o maior número absoluto de psicólogos do mundo, são mais de 390 mil, segundo o Conselho Brasileiro de Psicologia. Os Estados Unidos têm apenas 170 mil, a título de comparação.

Com esses números e as novas tecnologias de atendimento virtual, temos tudo para uma grande expansão de serviços de terapia.

Uma cruzada ideológica pela não utilização de medicações ou criticar quem as usa induz ao subtratamento e subdiagnóstico, tendo pouco a oferecer de forma prática.

É fruto de desconhecimento ou de nunca ter sentido na pele o sofrimento mental.

Não devemos ter medo de utilizar o que a medicina tem a oferecer, desde que seja preservada a visão integrada, multidisciplinar e de longo prazo.

Sair das sombras do adoecimento é possível à luz do atendimento humanizado. Que o número de pessoas atendidas e acolhidas sempre cresça, durante a após a pandemia.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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O realismo fantástico não pode ser o novo normal

O realismo fantástico é uma corrente artística presente na literatura, em filmes, novelas e outras expressões de arte que tem em sua essência a naturalização de elementos pitorescos no mundo real.

Realismo Mágico - Toda Matéria

Nos últimos anos, parece que fomos transportados para um desses romances.

A realidade lógica, crível, aquela que convencionamos chamar de “normal”, parece ter se esvaído.

Como fumaça, ficou fraca e se foi.

Ninguém percebeu quando exatamente, mas eventos fantásticos têm acontecido sem muitas explicações.

Algo deve ter mudado em 2013. Foi sobrenatural ver milhões de brasileiros tomando as ruas. O breve despertar do gigante adormecido mexeu com as tramas da normalidade. 

O GIGANTE ACORDOU - YouTube

Protestos. Todos juntos, ninguém soltava a mão de ninguém. Se olhando, de repente os personagens repararam os discursos diferentes.

Nem todo mundo concordava, mas tudo bem, a camisa do Brasil era ecumênica, não importava pra qual time você torcesse.

As obras da Copa se tornaram esqueletos abandonados pelas cidades.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete a um. Ganhamos nossa sátira, a piada interna, e toda semana tem um sete a um diferente. 

Eleições caricaturadas com políticos que conseguiram roubar até a nossa camisa verde e amarela. Um impeachment com reviravoltas, ligações grampeadas, traições.

Os torcedores, talvez com o grito engasgado do futebol, assistiram às votações do Legislativo com fogos de artifício, gritos, vaias e confetes. Difícil explicar para quem não viveu, mais difícil ainda concordar com os que estavam lá. 

A concordância desapareceu da história, ela se foi quando olhos focaram mais nas telas do que em outros olhos. A realidade se partiu em muitas.

Narrativas diferentes, verdades alternativas, a expansão das fake news e bolhas virtuais criaram versões diferentes do mesmo país. 

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Opiniões divergentes são essenciais, discordar do que é a realidade objetiva é obra de ficção, e a fantasia ganhou ares de distopia.

Acompanhamos áudios vazados que tornaram o Jornal Nacional muito mais eletrizante que qualquer novela.

Dois desastres ambientais gigantescos.

Uma greve de caminhoneiros que literalmente fez o país parar, assim, do dia pra noite.

O realismo fantástico também distorce o tempo, ele é mais cíclico e aleatório que linear, se repete e você se perde na ordem dos fatos. 

Mal terminada a disputa de 2018, as peças já se posicionavam para a de 2022. 2020 já foi? Parece que não terminou. Aquele julgamento de três anos atrás foi anulado e será reprisado em 2021, assistir de novo é sempre pior que a primeira vez. Qual ser supremo julga a constitucionalidade dessa realidade?

Sobre o tempo e os processos de desenvolvimento – My School Educação  Bilíngue

O surreal não tem limites e a primeira grande pandemia em um mundo globalizado, deixa a humanidade de joelhos para um vilão invisível.

Hospitais são transformados em trincheiras. As ruas são um baile de mascarados com emoções sombracelhadas e relações entre cortadas. 

A normalização do atípico, do absurdo, do improvável pelos que o vivem é o que caracteriza o realismo fantástico.

Ninguém se pergunta o porquê, não ficam chocados em como aquilo é possível, só aceitam o “novo normal” como se a vida sempre tivesse sido assim. 

Se serei mais um personagem que se acostuma, quero ao menos ser o que questiona o que nos trás até aqui e tenta fazer alguma coisa a respeito. 

Um pouco de monotonia seria fantástico pra variar.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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O Melhor Remédio para Emagrecer

Dieta milagrosa é coisa do passado, a febre do emagrecimento rápido e a qualquer custo são os apelidados “remédios para emagrecer”, se as pessoas tivessem ideia em que estão se metendo, pensariam duas vezes.

Prozac indignation | Salon.com

Poucos imaginam como uma  substância é classificada dentro de uma classe farmacológica.

Antes das medicações, já existiam os remédios.

Ao observar que quem bebia determinado chá tinha alívio para cólicas menstruais, se concluía que aquela erva deveria ser um bom remédio para essa aflição mensal. Assim se tinha um remédio.

Com os medicamentos, que são padronizados e regulados por agências rígidas, essa experimentação e observação continuou acontecendo.

A Psiquiatria foi revolucionada, quando perceberam que a Clorpromazina, inicialmente estudada como anestésico, reduzia sintomas psicóticos em pacientes esquizofrênicos. Pronto, assim nasceu o primeiro antipsicótico.

Da mesma forma, um antidepressivo, um hormônio de tireóide ou uma anfetamina, que eventualmente fazem algumas pessoas perderem peso passam a ser propagandeados como “para emagrecer”.

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Eles nunca foram desenvolvidos para isso.

Substâncias também não são mini robôs teleguiados para resolver exatamente o que você deseja. Se você tem uma dor no dedão, o analgésico não percorre o caminho da boca ao pé, ele vai se espalhar pelo corpo inteiro e, por onde passa, pode levar a efeitos colaterais imprevisíveis.

A Locarserina é um exemplo real que ainda pode ser encontrado por aí. Parecia perfeita, apenas inibia a fome e nada mais. Inicialmente aprovada para tratar obesidade, teve sua venda interrompida por aumentar a incidência de câncer.

Um risco benefício inaceitável, mas que não impede quem ainda busca medicamentos sem prescrição médica.

Antidepressivos e estimulantes agem no seu órgão mais nobre, de longe o mais importante, o cérebro.

Eles não vão simplesmente diminuir a sua fome, vários neurônios, que não tem nada a ver com modulação de apetite serão atingidos. Piora do sono, irritabilidade, redução da libido e até compulsão alimentar podem acontecer.

Descartando os riscos ocultos, aqueles efeitos colaterais que desconhecemos, como aumentar risco de câncer ou infartos cardíacos, existem todos os efeitos colaterais que via de regra, não são informados por quem vende um dito emagrecedor.

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Além das prateleiras das farmácias, estão as lojas virtuais e de suplementos alimentares, uma terra de ninguém.

Sem regulação rígida ou necessidade de prescrição médica, quem compra se orienta pela propaganda e nem imagina o que está tomando ou o que isso causa.

A busca desesperada por resultados rápidos, a confiança em um rótulo enganador e a falta de orientação não só gera resultados pífios, de curto prazo, como expõe a riscos absolutamente desnecessários.

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Sacrificar sua saúde por estética é o ápice da inversão de valores. 

O melhor remédio para emagrecer continua na sabedoria antiga, que existia muito antes das propagandas, dos rótulos e dos doutores de emagrecimento: dieta balanceada e exercício físico, experimente, são milagrosos.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Matéria Bem Estar sobre Estimulação Magnética Transcraniana

Matéria do Bem Estar sobre a Estimulação Magnética Transcraniana, tratamento contra a Depressão sem efeitos colaterais das quimicas medicamentosas.

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A armadilha do perfeccionismo 


Quer que um projeto de vida nunca aconteça? tente faze-lo de forma perfeita.

Perfeccionismo é aquele defeito que até parece qualidade, ótimo para ser mencionado em entrevistas de emprego e a justificativa para tudo que nunca começou.

Uma armadilha ao seu potencial. 

Sempre que um paciente se incomoda sobre estar procrastinando planos de sua vida, ao contrário de uma esperada falta de iniciativa e energia, o que encontro é a busca pela perfeição.

Se não for para ficar perfeito, melhor nem fazer. E nunca será feito.

A brilhante escritora Brené Brown, cujos livros recomendo, interpreta o perfeccionismo como um escudo, uma tentativa de se proteger contra a vergonha e julgamento alheio e de si próprio.

No núcleo do perfeccionista não existe o esforço pela excelência, existe o medo de exposição.

No fim, o perfeccionismo é um movimento defensivo.

Acumuladores de responsabilidades no trabalho e estudantes ansiosos com as notas bimestrais.

Na busca pela meta inatingível, em que todos os desfechos sejam planejados e que fatores aleatórios estejam sob controle, só se encontra frustração, esgotamento e autopunição.

A Síndrome de Burnout, que recentemente foi promovida à categoria de diagnóstico médico, é basicamente a estafa, o esgotamento pelo trabalho. Assim como o consumo excessivo de açúcar leva ao diabetes, a busca exagerada por ser perfeito, leva ao Burnout. 

O guia do crescimento pessoal é a pergunta constante “Como posso melhorar?”.

Quando uma atividade é orientada à performance, avaliação e notas, muda-se o foco para “O que eles vão pensar?”.

A pessoa deixa de ter valor por si própria e passa a ter o valor determinado pelo o que realiza e quão bem o faz.

Esse é o perfeccionista que você conhece, que francamente, todos somos em algum grau.

Existe o outro perfeccionista, que infelizmente, você talvez nunca tenha ouvido falar. 

Ideias que nunca foram ditas em voz alta e livros que nunca foram escritos, quem se convenceu que a execução de qualquer projeto deve ser impecável, termina nunca seguindo suas inspirações.

As idéias mirabolantes, mas potencialmente transformadoras, nunca saem do papel.

O escudo do perfeccionismo mata a capacidade de ousar, de fazer diferente, e com isso todos perdemos.

Lamento especialmente pelos artistas que nunca conhecemos.

Experimentar uma avaliação negativa, e ela ressoa bem mais forte que as positivas, não é fruto de não ter sido falho, imperfeito ou insuficiente. É fruto de estar fazendo algo inovador, de se expor, de se permitir ouvir a opinião alheia. 

A ida do homem à Lua não inspira pela perfeição, é pela ousadia.

Os encontros que transformaram sua vida não foram planejados.

A maior oportunidade de negócio surgiu fora da linha reta.

As conversas mais significativas só acontecem quando se mostra falhas e vulnerabilidades.

Perfeccionismo é um raciocínio emocionalmente autodestrutivo, que nunca moveu o mundo e não é fonte de satisfação pessoal.

Recepcione a imperfeição alheia, critique menos quem falhou, elogie a inovação, por menor que seja.

Quando ver alguém caindo, sorria e compartilhe a história da sua queda. 

Melhor feito do que não feito.

Delegue aquilo que te sobrecarrega, menos foco na nota e mais importância ao seu crescimento pessoal.

Ouse ser diferente e inovar.

Sua imperfeição é inspiradora.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Não se apegue ao diagnóstico

Você sente um mal estar, dor nas costas, febre ou queda de cabelo e busca um profissional da saúde.

Renomeadas sintomas, as sensações ordinárias serão enxergadas pelo prisma de um diagnóstico, a partir dele o tratamento é instituído.

Torcemos pela cura, rogamos que seja rápida. 

7 Beliefs of Emotionally Healthy People | Psychology Today

Sem o diagnóstico, o sofrimento não encontra a cura. Para tratar é preciso entender.

Um degrau indispensável para conseguir alívio. Como uma bússola, ele guia os passos seguintes no processo de cuidado. 

Na psiquiatria, a busca pelo diagnóstico pode se tornar um drama à parte e nenhum profissional da saúde mental se apressa na conclusão diagnóstica.

O primeiro motivo para isso é o diálogo entre o social e o biológico, a maneira de performar a mesma doença muda conforme o contexto.

Déficits de atenção serão percebidos de forma diferente por um advogado e uma dançarina de balé.

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Variações de humor de uma professora de catequese, não ocorrem da mesma forma que a de uma personal trainer. 

Captar nuances, entender o contexto, ouvir a história é o que afina o olhar para aquele indivíduo e atribui significado médico a comportamentos e estados de espírito.

Sintonizamos a frequência genérica dos manuais diagnósticos ao ritmo de vida de quem sofre. 

Também é desafiador quantificar.

Hipertensão arterial é definida por um número exato em milímetros de mercúrio, qual unidade de medida seria capaz de determinar o valor da tristeza? e da ansiedade? 

Normatizar métricas universais transformaria parâmetros em paradigmas.

A intensidade do sofrimento, ou seja, a experiência subjetiva, legitima a queixa e nada mais. 

Não obstante seu caráter subjetivo, existem alterações bioquímicas, mutações genéticas, enzimas que funcionam demais e neurotransmissores que existem de menos.

Sobre essa base neurológica atuam as intervenções médicas.

A psicoterapia, guiada pela psicologia, atua nas repercussões interpessoais, conflitos internos, e na mudança de padrões de comportamento e pensamento. 

 O diagnóstico, portanto, não consegue existir como algo pontual, uma fotografia capturada em uma consulta, ele é um filme, diversas imagens observadas no período de meses. 

No decorrer desse enredo, o transtorno de ansiedade cede lugar a uma depressão após o parto do primeiro filho, que pode ser a primeira manifestação de um transtorno bipolar piorado pelo ritmo de trabalho. 

Ter um nome, um código, para o que sente pode reconfortar.

No entanto, encarar uma doença incurável, que necessita de medicação por toda a vida, pode assustar.

Uma faca de dois gumes, pode libertar e, se mal compreendida, aprisionar.  

Por isso, minha proposta aos que trazem o sofrimento ao consultório, é que confie no profissional, nós vamos buscar o diagnóstico com você.

Uma visão acolhedora, longitudinal e especializada sobre suas angústias trará bons frutos. 

E finalmente, não se apegue ao diagnóstico, se apegue à melhora.

Otimismo é importante, mas encare a realidade

“As pessoas podem prever o futuro somente quando ele coincide com seus próprios desejos, e os fatos mais grosseiramente óbvios podem ser ignorados quando não são bem vindos ” – George Orwell 

Facing Reality | Partners in EXCELLENCE Blog -- Making A Difference

Sim, a incapacidade de prever o que contraria seus anseios e ambições certamente já nublou seu raciocínio lógico. 

O termo inglês wishful thinking, que é de difícil tradução, descreve a distorção do entendimento da realidade pelo o que a pessoa quer que seja aconteça. É acreditar em algo pelo desejo (wish) que isso seja verdade, é um viés de desejabilidade.

Os exemplos atuais da pandemia de COVID 19 contextualizam o fenômeno.

Incidência de luz solar, vacina BCG, hidroxicloroquina e outras peculiaridades mato-grossenses eram argumentos para refutar a possibilidade do estado ser atingido pela doença. 

Não fomos só alcançados, como ainda estamos longe de superar a situação. 

Acreditar que uma doença que atingiu de países europeus, ao Irã e metrópoles americanas verdadeiramente não atingiria a cidade em que você mora é uma crença totalmente desvalida de uma análise fria dos fatos.

Como um exercício de engenharia reversa, o wishful thinking começa pelo desejo inicial: Não quero que eu e os que amo sejam atingidos pela doença. Quase de forma instantânea, uma lente enviesada passa a selecionar, ponto a ponto, o que confirma esse futuro idealizado. 

The Dangers of Wishful Thinking | Pubs and Publications

  A projeção do futuro é elevada ao patamar de evento consumado e partir disso o que confirme o desfecho se torna argumento, o que contraria é sumariamente refutado.

Quer observar isso ao vivo e a cores? Pergunte aos seus conhecidos envolvidos em campanhas eleitorais sobre as chances reais de eleição do seu candidato. Se prepare para testemunhar uma verdadeira alquimia de indícios e argumentos que dão a vitória como certa.

Ser otimista quanto ao futuro é necessário, nos motiva a sair de casa, mas no wishful thinking o desejo infla o otimismo. Ele distorce a cognição ao ponto de alguém investir tempo, dinheiro e energia em busca de um resultado altamente improvável e algumas vezes impossível. 

Aplicações em esquemas de pirâmide, a crença na vacina contra o coronavírus antes do Natal, a certeza de uma virada de última hora na corrida eleitoral são frutos dessa cegueira parcial que conforta, justifica ações e ultimamente funciona como defesa à dureza da realidade, sempre indiferente à sentimentos. 

No contexto de disponibilidade infinita de notícias que oferecem versões alternativas de dados concretos, é fácil selecionar as que reforcem o seu viés.

Circulação de notícia falsa, ou fake news, é desafio para as escolas e suas  equipes gestoras, principalmente em ano de eleição

Sem enxergar defeitos, sem perceber falhas nas nossas opiniões não conseguimos fazer um ajuste de rota. Não adotamos decisões enérgicas e rápidas baseadas em ciência, não concretizamos reformas políticas e erramos em decisões da vida pessoal por se apegar a versões editadas dos fatos.

Uma população que perde a visão crítica quanto a suas capacidades, que não aceita dados contraditórios e não pondera com ceticismo, se torna presa fácil para marketeiros, engenheiros sociais e se encanta com barcas furadas como a construção ar condicionado no centro de Cuiabá ou de um veículo leve sobre trilhos.

Fique atento, para evitar uma distopia orwelliana o otimismo é importante, mas encare a realidade.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Outubro Rosa, vamos nos tocar

Setembro se vai e os ipês amarelos já perderam suas flores.  Estamos em Outubro, mês oficial da luta contra o câncer de mama.

O Outubro Rosa se consolidou mundialmente pelas ações desenvolvidas por instituições públicas e privadas, monumentos iluminados e relatos de sobreviventes da doença. 

Meses simbólicos como o Setembro Amarelo e o Outubro Rosa são um fôlego de união em nossa sociedade polarizada, bastante oportunos em mais um ano eleitoral.

O impacto emocional e engajamento se explica tanto por dados estatísticos, quanto por representações simbólica e sociais. 

 O câncer de mama representa mais de dez por cento do número total de neoplasias. É o mais prevalente entre mulheres e o Instituto Nacional do Câncer estima que mais de 66 mil novos casos serão diagnosticados por ano. 

Descrições egípcias milenares e Hipócrates na Grécia antiga já registravam esse tipo de tumor como um problema de saúde relevante. 

Breast Cancer in Egypt: When Myths and Patriarchy Stand in the Way

Esse ano um levantamento preocupante da ONG Instituto Oncoguia constatou que as medidas de contenção ao COVID 19 geraram atraso em procedimentos como quimio  e radioterapias, sendo que os pacientes do SUS foram muito mais afetados do que os do sistema particular. 

Câncer não é uma doença única. Assim como não faria sentido se referir genericamente a catapora e hepatite B como “viroses”, há algo de peculiar no câncer de mama que vai além de seus aspectos celulares e anatômicos.

Existe simbolismo cultural e social em torno dessa parte do corpo das mulheres. A pressão sob os seios se inicia na puberdade, como atestado de maturidade e de “se tornar mulher”.

Breast Cancer Awareness with Ribbon Logo (Graphic) by DEEMKA STUDIO ·  Creative Fabrica

Na idade adulta o seio feminino encontra papéis dicotômicos de afirmação de feminilidade, infelizmente atrelada a sexualidade e provocação, e de maternidade, que em algum momento se tornou exclusivo à mulheres santas e sem defeitos. 

Como se o corpo não tivesse dona e a mama fosse objeto de domínio público, são inventadas normas de etiqueta sobre o quanto é adequado que ela apareça em determinados ambientes,  enquanto criamos leis garantindo o aleitamento materno em locais públicos. 

A mensagem transmitida por essa postura coletiva é a certeza que decisões sobre cirurgias de mastectomia, reconstrução mamária e simetria perfeita serão alvo do escrutínio alheio e, indiretamente, representam sua imagem enquanto pessoa e mulher. 

Why One Woman Said 'No' to Reconstruction After a Double Mastectomy

Mulheres são estimuladas a se tocar como forma de prevenção. Proponho aos homens que também se toquem e aceitem que o corpo feminino não existe para seus conceitos e legislações.

Asimilar que corpos diferentes também podem ser femininos, saudáveis e “normais” é um passo importante da redução do estigma e diminuição da carga emocional que o diagnóstico carrega. 

Cicatrizes não precisam ser imperfeições, podem ser símbolo de superação, coragem, persistência e domínio sobre o próprio corpo. 

Desejo força e saúde a todas guerreiras que de peito e alma travam a batalha contra o câncer de mama.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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Eco-Ansiedade: como o fogo, ela está se alastrando

Imagine que você pretende viver por várias décadas.

Imagine saber, sem sombra de dúvida, que em alguns anos você assistirá catástrofes e quando tudo começar não será possível voltar atrás.

Imagine ter convicção que as próximas gerações vão herdar um mundo com o meio ambiente e atmosfera devastada.

Só de escrever essa introdução já sinto ansiedade, ter esse futuro reforçado por todo relatório, notícia e estudo científico sério gera um novo fenômeno psicológico: a eco-ansiedade.

A Associação Psicológica Americana definiu o termo como o medo crônico de uma catástrofe ambiental.

Assim como o nível dos mares, a tensão emocional em torno das mudanças e de futuras calamidades climáticas tem aumentado progressivamente. 

O tema sempre pareceu distante, aquecimento global é importante para um futuro inespecífico e “não vai me atingir”. Com a pandemia de COVID 19 também pensamos assim.

Além disso, o cérebro humano não enxerga mudanças que ocorrem no decorrer de anos. Não agimos se os resultados só aparecem na próxima década, somos péssimos em prevenção. 

Essa visão limitada atrapalha, por exemplo, o planejamento de uma aposentadoria, e dificulta a encarar as verdades sobre as consequências climáticas da atividade humana. 

O assunto é tão desconfortável que criamos um silêncio social em torno disso, em Cuiabá o tema só aparece no período da seca e queimadas e se encerra com a chuva do caju.  Já estamos em clima de eleição e meio ambiente nunca pautou a escolha de governantes em nossa cidade.

Temas que geram ansiedade alimentam líderes negacionistas, o discurso dessas figuras são o ansiolítico. É só discursar que é tudo mentira, que aquecimento global não existe e que as queimadas sempre aconteceram e pronto, discussão encerrada. 

O problema é que criar uma “versão alternativa dos fatos”, antigamente chamada de mentira,  não muda a realidade. Não funcionou na pandemia e não vai funcionar com a natureza, acredite.

Os próximos quatro anos devem ser mais secos e mais quentes do que os quatro anos anteriores, o pantanal encolherá mais um pouco e a fauna será mais destruída. Perderemos milhares de hectares da Amazônia e a humidade que ela trás à atmosfera. 

Afirmações simples, sólidas e, pelo visto, inevitáveis.

Quem opta por reconhecer a realidade precisa lidar com a sensação de impotência, que aliada a falta de perspectivas de futuro sustentável gera a eco-ansiedade. 

A ansiedade normalmente é ligada a distorções dos fatos e a sensações físicas como falta de ar. A eco-ansiedade vem justamente do não distorcer os dados e a falta de ar é bem real.

O desconforto sentido pelas imagens do pantanal em chamas, de animais morrendo e da amazônia cada vez mais devastada, deve progressivamente aumentar essa sensação em nosso estado.

Espero que, como fogo, a eco-ansiedade se alastre e seja o combustível de mudanças que precisamos. Torço para que seja a tempo. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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A Trajetória da Ofensa

Ela não surgiu do nada, não é fruto do éter, não veio do vácuo. 

É filha das estruturas, cresceu nas entrelinhas, se alimenta de indiretas.

Vou contar a trajetória da Ofensa, a Ofensa Contra Pessoas Deprimidas.

Pude acompanha-la em vários momentos, quando ela nasce e quando mata. 

Sem nenhuma formalidade ela aparece no trabalho contra a colega afastada para tratamento. Na mesa de almoço com uma cadeira vazia, quando o filho não conseguiu sair da cama e interagir com a família. 

Seu papel é ferir. Aumenta o sofrimento, nunca vai traz positividade a quem sofre. 

Aumenta a carga do outro e o autor não ganha a nada em troca.

Não volta atrás, como a flecha, mas esta só atinge um alvo. A palavra vai mais longe, quem ouvir pode sair ferido.

Atinge a criança com depressão, a adolescente que esconde seus cortes e o seu  amigo sorridente que sofre por dentro.

A Ofensa sai da boca de Alguém. Para esse Alguém ela é semente, a semeadura foi opcional, mas a colheita vai ser obrigatória.

Alguém é humano, é uma pessoa, e sendo pessoa, pode ficar deprimido.

É nesse momento, de sofrimento e dor que a colheita acontece. 

Alguém que era acostumado a julgar a vida alheia, vai sentir todo o peso das Ofensas. 

“Você é um fraco”, “é uma decepção”, “está louca”, “é preguiçoso”, elas vão ressoar, atormentar e tornar muito mais difícil o tratamento de Alguém que optou por ofender.

Só existe um caminho para se livrar desse peso: falar.

A palavra que pode ferir, também pode curar.  Assumir que ofendeu, se haver com seus preconceitos,  enfrentar de forma honesta suas próprias Ofensas.

Todos podemos ser esse Alguém, podemos também deixar de ser.

Ajude mais, ofenda menos. 

Você não sabe o quanto isso fere o outro, está atingindo quem nem imagina, e te garanto que na hora da colheita vai se arrepender, sem ofensas. 

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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