O realismo fantástico não pode ser o novo normal

O realismo fantástico é uma corrente artística presente na literatura, em filmes, novelas e outras expressões de arte que tem em sua essência a naturalização de elementos pitorescos no mundo real.

Realismo Mágico - Toda Matéria

Nos últimos anos, parece que fomos transportados para um desses romances.

A realidade lógica, crível, aquela que convencionamos chamar de “normal”, parece ter se esvaído.

Como fumaça, ficou fraca e se foi.

Ninguém percebeu quando exatamente, mas eventos fantásticos têm acontecido sem muitas explicações.

Algo deve ter mudado em 2013. Foi sobrenatural ver milhões de brasileiros tomando as ruas. O breve despertar do gigante adormecido mexeu com as tramas da normalidade. 

O GIGANTE ACORDOU - YouTube

Protestos. Todos juntos, ninguém soltava a mão de ninguém. Se olhando, de repente os personagens repararam os discursos diferentes.

Nem todo mundo concordava, mas tudo bem, a camisa do Brasil era ecumênica, não importava pra qual time você torcesse.

As obras da Copa se tornaram esqueletos abandonados pelas cidades.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete a um. Ganhamos nossa sátira, a piada interna, e toda semana tem um sete a um diferente. 

Eleições caricaturadas com políticos que conseguiram roubar até a nossa camisa verde e amarela. Um impeachment com reviravoltas, ligações grampeadas, traições.

Os torcedores, talvez com o grito engasgado do futebol, assistiram às votações do Legislativo com fogos de artifício, gritos, vaias e confetes. Difícil explicar para quem não viveu, mais difícil ainda concordar com os que estavam lá. 

A concordância desapareceu da história, ela se foi quando olhos focaram mais nas telas do que em outros olhos. A realidade se partiu em muitas.

Narrativas diferentes, verdades alternativas, a expansão das fake news e bolhas virtuais criaram versões diferentes do mesmo país. 

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Opiniões divergentes são essenciais, discordar do que é a realidade objetiva é obra de ficção, e a fantasia ganhou ares de distopia.

Acompanhamos áudios vazados que tornaram o Jornal Nacional muito mais eletrizante que qualquer novela.

Dois desastres ambientais gigantescos.

Uma greve de caminhoneiros que literalmente fez o país parar, assim, do dia pra noite.

O realismo fantástico também distorce o tempo, ele é mais cíclico e aleatório que linear, se repete e você se perde na ordem dos fatos. 

Mal terminada a disputa de 2018, as peças já se posicionavam para a de 2022. 2020 já foi? Parece que não terminou. Aquele julgamento de três anos atrás foi anulado e será reprisado em 2021, assistir de novo é sempre pior que a primeira vez. Qual ser supremo julga a constitucionalidade dessa realidade?

Sobre o tempo e os processos de desenvolvimento – My School Educação  Bilíngue

O surreal não tem limites e a primeira grande pandemia em um mundo globalizado, deixa a humanidade de joelhos para um vilão invisível.

Hospitais são transformados em trincheiras. As ruas são um baile de mascarados com emoções sombracelhadas e relações entre cortadas. 

A normalização do atípico, do absurdo, do improvável pelos que o vivem é o que caracteriza o realismo fantástico.

Ninguém se pergunta o porquê, não ficam chocados em como aquilo é possível, só aceitam o “novo normal” como se a vida sempre tivesse sido assim. 

Se serei mais um personagem que se acostuma, quero ao menos ser o que questiona o que nos trás até aqui e tenta fazer alguma coisa a respeito. 

Um pouco de monotonia seria fantástico pra variar.

Dr. Manoel Vicente de Barros – Psiquiatra em Cuiabá

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